PERGUNTAS E RESPOSTAS 26/10/2008
Recentemente recebi uma pergunta bíblica de um membro da nossa igreja. A questão era esta: “Há algum tempo atrás eu estava discutindo com um amigo meu que é ateu, entre as discussões existiu a do criacionismo x evolucionismo... Em uma dessas conversas ele me perguntou como a serpente no Éden conversou com a Eva e ela nem percebeu que a serpente estava falando... Ai eu não sabia o que responder e disse que iria perguntar para alguém... E eu gostaria de saber se o senhor sabe de alguma coisa em relação a este texto, especificamente nesta parte da serpente falar e a Eva não perceber que a serpente estava sendo usada por satanás. Se o senhor souber de alguma coisa, por favor, me mande alguma explicação... Eu e meu amigo estamos esperando”.
Geralmente algumas pessoas tentam considerar o texto de Gênesis como algo mítico ao invés de aceitar o texto como uma história literal. Isso acontece porque a maioria das pessoas usam de pressupostos subjetivos de impossibilidade. Mas ao olharmos para a Bíblia podemos perceber que os escritores bíblicos tinham em mente a história como verdadeira.
O texto bíblico declara: “Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o SENHOR Deus tinha feito...” (Gênesis 3:1). Quem era esta serpente? Ela teria condições de falar com a mulher ou havia um outro ser usando sua forma?
Na cultura antiga as serpentes eram adoradas. Na mitologia e no culto religioso cananeu, mesopotâmico, anatólio e egípcio, eram comuns as divindades-serpentes. Em alguns contextos, as serpentes eram símbolos de proteção (no Egito, a naja), contra o mal (‘Apepe ou Apopis egípcio), da fecundidade (deusas do sexo, egípto-cananéias) ou da continuação da vida (simbolizadas pelas repetidas renovações de pele).
Nestas culturas era comum falar de uma “árvore da vida” e de serpentes enganadoras. O relato mais conhecido é a Epopéia de Gilgamesh. Neste mito, Gilgamesh fica horrorizado pela morte de seu amigo, Enkidu, e parte à procura da imortalidade. Depois de transpor as portas do Sol e as águas da Morte, desembarca numa ilha paradisíaca, onde o herói do dilúvio, Uta-Napistim, tinha sido levado pelos deuses para receber ali a imortalidade. Uta-Napistim revela a Gilgamesh o segredo da “planta da vida”. Gilgamesh consegue colher a planta, mas esta lhe é roubada por uma serpente. Com isso restava ao homem nada mais a não ser criar um nome para si na história e depois morrer. Esse seria o destino imutável do homem na sabedoria babilônica. Essa literatura data de aproximadamente 2000 a.C. e nos mostra como era comum essa idéia de uma serpente enganadora.
O fato de o texto babilônico está numa linguagem mítica não significa que o texto bíblico também o seja. Aliás, mito não significa lenda ou fantasia, mas uma forma de narração explicativa. O texto bíblico foi escrito depois do relato de Gilgamesh, mas isso é facilmente explicado. Os hebreus tinham por costume preservar sua história e identidade através de relatos orais. É comum a Bíblia falar de transmitir os ensinamentos através de relatos orais (cf. Salmos 78:1-4).
Quando o texto bíblico fala da serpente como “o mais astuto de todos os animais” encontramos algo esclarecedor. O vocábulo “astuto” (~Wrê[' - `ärûm) também pode ter o sentido de “sutil, sagaz ou prudente” (cf. Provérbios 12:23; 14:18). No Evangelho Jesus usa o exemplo da serpente para trazer a idéia de inteligência e prudência (Mateus 10:16). Fica claro aqui que o animal era perigoso, pronto para induzir ao erro.
Mas a serpente fala? Claro que não! Em parte alguma do Gênesis o tentador é chamado de diabo ou Satanás. Entretanto, é impossível não ver mais que a serpente aqui, pois o evento envolve muito mais do que uma criatura irracional sozinha poderia fazer. A identificação com o diabo é feita em várias passagens da Bíblia (João 8:44; 2Coríntios 11:3,14; Apocalipse 12:9; 20:2). Fica claro que o maligno usou de forma excepcional a serpente para alcançar seu propósito.
Mas por que Eva não percebeu que era uma serpente falando? Porque o caminho da tentação geralmente é algo atraente, e com a aparência de inteligência, racionalidade ou respeitabilidade, pode enganar as pessoas. Eva foi jeitosamente atraída para uma discussão que não cabia a ela. A serpente nada mais era que um disfarce através do qual Satanás falou com o intuito de fazer suas sugestões.
A realidade é mais ampla do que aquilo que nossos sentidos podem observar. A mente ocidental, influenciada pelo racionalismo pensa que aquilo que não pode ser provado não existe. Ora, isso é de uma dedução simplista. Há coisas que existem e nunca foram provadas. E a realidade espiritual não pode ser colocada num laboratório, mas com certeza existe. As realidades metafísicas acontecem constantemente ao nosso redor. Deus existe e o diabo também. Há apenas uma singular diferença entre eles. Deus é o criador, eterno e imutável, enquanto que o diabo é uma criatura, decaída de sua origem, maligna e finita. Da mesma forma que Deus usou uma burra para falar com Balaão (Números 22:21-35), Satanás usou a serpente para enganar Eva e Adão.

Tenha uma ótima semana com Jesus. De seu amigo, Pr. Gilson Jr.

 
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