APÓSTOLO? PARA QUÊ? 30/03/2008
Vivemos dias de retrocesso, dias em que a verdade bíblica está sendo colocada de lado para beneficiar uns poucos “ungidos” nas suas posições de “elevada espiritualidade”, de modo que o povo desatento e despreparado biblicamente caia em sofismas. Bem disse o profeta: “Meu povo foi destruído por falta de conhecimento...” (Oséias 4:6a). Este retrocesso a que falo nada mais é do que este desejo megalomaníaco de pastores e igrejas pelo “título” de apóstolo (que na verdade não é título). A Igreja evangélica no Brasil anda ansiosa, à busca de formar uma hierarquia religiosa, partindo de obreiros, indo a presbíteros, pastores, bispos e apóstolos. Onde chegaremos? Será que vamos ter um “Patriarca” como os ortodoxos? Ou quem sabe um “Papa” evangélico? O que você acha?
A hierarquia foi construída com o passar dos anos, numa clara demonstração da centralização do poder e como aumento do sacramentalismo e do sacerdotalismo. O crescimento da autoridade dos bispos das grandes cidades contribuiu para o desenvolvimento de uma hierarquia na Igreja cristã. Em meados do quarto século, cidades como Jerusalém, Alexandria, Antioquia, Constantinopla e Roma eram as maiores representantes do cristianismo no mundo. Os bispos destas igrejas eram visto com grande autoridade. O mais interessante é que o movimento de Jesus não era assim no início.
Quando lemos o livro de Atos e as Cartas apostólicas percebemos que a Igreja era mais simples. Quem eram os presbíteros, bispos, pastores e apóstolos? Vejamos abaixo uma explicação sobre estes termos que se encontram no Novo Testamento.
Presbítero (presbu,teroj) significa literalmente “velho”. Deriva de outra palavra grega, presbeu,w (presbeuô), que significa “ser mais velho; ser um embaixador, reger”. Geralmente usa-se a expressão “ancião”. O Conselho de anciãos era chamado de presbute,rion (presbyterion) e isto apontava para o Sinédrio judaico. Bispo (evpi,skopoj) significa “supervisor, guardador, bispo”. No grego clássico vemos a palavra sendo usada para descrever uma divindade que vigia sobre um país ou um povo. Esta palavra também descreve a fidelidade em guardar tratos e a honestidade nos mercados. Depois esta palavra indicava um título aos homens que exerciam uma posição de responsabilidade dentro do estado, sendo estendido a comunidades religiosas. Pastor (poimh,n): Esta é uma palavra indo-européia que pode significar “boiadeiro, pastor”. Escritores antigos como Homero e Platão (427-347 a.C.) usaram o sentido metafórico, tais como, “líder, governante, comandante”. No Oriente antigo “pastor” era um título de honra que se aplicava aos soberanos e divindades de igual modo. Registros foram encontrados entre os Sumérios, Babilônios e Egípcios. Yahweh era chamado de o único Pastor de Israel (Gn. 48:15; 49:24). Esta idéia desenvolveu-se numa experiência religiosa do povo e aparece em diversos salmos (Sl 23; 28:9; 68:8,9 e 110:3, por exemplo). Deus é reconhecido como um Pastor fiel (Sl. 23). Israel é o rebanho de Yahweh (Jr. 13:17; Is. 40:11; Ez. 34:31). O Messias também era referido como um pastor enviado da parte de Deus (Jr. 3:15; 23:4; Ez. 34:23; 37:22,24).
Sabe o que é interessante? Os três termos apontam para o mesmo líder da igreja. Diz a Bíblia: “De Mileto, Paulo mandou chamar os presbíteros da igreja de Éfeso... ‘Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue’” (Atos 20:17,28). Pedro escreve assim: “Portanto, apelo aos presbíteros que há entre vocês, e faço na qualidade de presbítero como eles... pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados...“ (1Pedro 5:1,2; Ver também Efésios 4:11; Tito 1:5-7 e 1Timóteo 5:17). A corrida por títulos não existia na Igreja Primitiva. Então, por que esta febre entre a Igreja evangélica? Só há uma razão: Ganância e sede de poder.
E o apóstolo? Apóstolo (avpo,stoloj): Este vocábulo grego deriva de avposte,llw (apostellô), que significa “enviar”. No caso de avpo,stoloj (apostolos) o seu significado é “enviado, embaixador” ou a transliteração “apóstolo”. É interessante a forma como Paulo fala dos apóstolos. Ele em nenhum momento mostra que a posição especial do apóstolo, como exemplo aos demais cristãos (1Co. 4:16; Fp. 3:17), está acima da igreja ou que seja maior do qualquer dos dons espirituais (1Co. 12:25-28; Ef. 4:11; Rm. 1:11,12). Os dons espirituais cumprem funções específicas na igreja, capacitando os cristãos a cumprirem o ministério na igreja local. Paulo deixa claro que a autoridade do apóstolo não deriva de nenhuma qualidade especial que ele possua (1Co. 3:5), mas sim do próprio evangelho, na sua verdade e no seu poder para convencer (Rm. 15:18; 2 Co. 4:2). Por esta razão Paulo deixa claro quando menciona sua própria opinião (1Co. 7:10-12).
Paulo teve um encontro marcante com o Senhor ressurreto (At. 9). Sendo assim ele considerava como o último dos apóstolos (1Co. 15:8). Mas é interessante notar que não fica claro quem ou que Paulo entendia ser apóstolo. Ele com certeza era um dos apóstolos e podemos ver isso 14 vezes nas suas cartas. Mas ele cita como apóstolos, Pedro (Gl. 1:18,19), Júnias e Andrônico (Rm. 16:7), e Barnabé (cf. At. 14:14 com Gl. 2:1,9,13). Há ainda a menção de Tiago, o irmão do Senhor (Gl. 1:19) e de Silvano (2Co. 1:19; 1Ts. 1:1). Seja como for, Paulo nunca aplica o título avpo,stoloj (apostolos) aos Doze como um grupo específico. Vemos que Paulo usa algumas vezes a palavra com a idéia do mensageiro (avpo,stoloi), como em 2Coríntios 8:23 e Filipenses 2:25 quando fala de Tito e Epafrodito. Desta forma entendemos que Paulo não via os apóstolos restritos a um grupo de Doze. É possível que houvesse outros apóstolos.
O problema é termos apóstolos? Não, mas os que existem querem ser como os apóstolos do primeiro século? Eles não se viam como os melhores, eram designados a saírem e implantarem comunidades cristãs onde o Evangelho ainda não tinha chegado. Eles não ficavam na igreja “mandando”, mas serviam a igreja, sendo enviados por ela para pregar o Evangelho. Eu diria que os missionários nada mais são que apóstolos que chegam onde o cristão não pode chegar sozinho.
Minha reflexão é para que cheguemos à seguinte conclusão: Não há razão para este crescimento da hierarquia da igreja. Os títulos são abusos de poder. Cristo não deu títulos, deu dons. Não deixou uma hierarquia, mas deixou uma liderança. Liderança não se impõe, mas é reconhecida. Cristo disse algo significativo a todos nós: “Jesus os chamou e disse: ‘Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:42-45). Este é o exemplo, vamos segui-lo.

Tenha uma ótima semana com Jesus. De seu amigo, Pr. Gilson Jr.

 
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