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09 - Laodicéia |
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Ap. 3:14-22
Esta é a última igreja a ser estudada, Laodicéia. Vejamos abaixo algumas características:
· Essa era uma cidade da província romana da Ásia Menor, onde hoje é a Turquia asiática. No século III a.C. foi fundada uma cidade no local pelo rei seleucida Antíoco III, quando então recebeu o nome baseado no nome de sua própria esposa, “Laodice”.
· Era uma cidade bastante próspera devido a sua posição geográfica. Ela interligava o ocidente e o oriente, e as cidades mais importantes. Isso encorajou o comércio em Laodicéia que se tornou bancário e comercial.
· Várias indústrias surgiram ali como a da lã, de tabletes medicinais[1] e o fabrico de roupas.
· O trecho de Cl. 4:15,16 mostra-nos que no tempo de Paulo a cidade já contava com uma comunidade cristã. Poderia ter sido iniciada mediante o trabalho de evangelistas enviados de Éfeso, a capital cristã daquela região, talvez um trabalho patrocinado pela igreja de Colossos.
· Alguns acham que a epístola aos efésios na realidade fosse a Laodicéia. Mas esta é apenas uma suposição.
Laodicéia é o cúmulo da acomodação. É uma igreja que parece ter se identificado com a riqueza deste mundo e seu poder, e que se esqueceu de seu Senhor. Alguns crêem que Laodicéia é o exemplo da igreja antes da vinda de Jesus.
É por esta razão que Cristo se apresenta como o “Amém”, ou seja, Ele é a validade da mensagem cristã, a afirmação da boa vontade de Deus, a garantia dada por Deus aos homens. Podemos ver aqui neste título de Cristo um eco de Is. 65:16: “de sorte que aquele que se abençoar na terra, por Deus, que dirá amém, é que se abençoará;...”. Amém é a palavra hebraica para expressar a idéia de veracidade. Na Septuaginta (LXX)[2] se traduz como “o Deus verdadeiro”.
Ele também se apresenta como “a testemunha fiel e verdadeira”, ou seja, a sua mensagem é veraz, digna de toda a confiança. Nele não há falhas. Isso pode ser contrastado com a infidelidade e a falsidade humana. Cristo vem de encontro a esta igreja que o abandonou. Ele diz que é a fonte da verdade e fidelidade, e mostra que esta igreja nada tem a ver consigo.
Portanto irmãos, é hora de refletirmos sobre isto: Até que ponto estamos realmente sintonizados com Cristo? Temos andado em fidelidade diante do Senhor? Vejamos o que levou Laodicéia a apostasia e tiremos importantes lições:
I – Ela era uma igreja morna (v. 15,16)
Pelas informações que temos, Laodicéia não tinha um suprimento de água próprio. Para isto necessitava de um aqueduto, o que neste processo, fazia com que a água chegasse morna. O simbolismo fala sobre a indiferença religiosa, sobre a superficialidade, sobre a falta de resolução. George Ladd diz que “eles não tinham a frieza da hostilidade ao evangelho ou da rejeição da fé; mas também não tinham zelo e fervor.”. Isto fazia desta igreja uma igreja acomodada.
Tudo leva a crer que os cristãos de Laodicéia se recusavam abandonar o culto ao imperador. Eles adoravam o imperador, diziam não fazê-lo de coração, e adoravam a Deus. Desta forma evitavam a perseguição e participavam das riquezas da cidade. Era uma espécie de igreja cristã-pagã.
Este quadro não está distante de nossos olhos. Hoje o evangelho é pregado sem exigências morais e éticas. As pessoas querem Jesus, porém se recusam a abandonar a vida antiga; recusam-se a abandonar os “ídolos”. Esta condição de mornidão fez de Laodicéia uma igreja apóstata.
É por esta razão que Cristo diz: “...Melhor seria que você fosse frio ou quente!...”. Você já tentou beber alguma vez água morna? Com certeza deve ser horrível devido a sensação de náuseas que a água morna provoca. O termo grego ofelon (ophelon) é usado no passado do indicativo, expressando uma possibilidade, embora no presente ainda não se tivesse realizado. Cristo queria uma definição. Isto nos mostra que com Deus a coisa é séria. Ele requer decisão. Ou é sim, ou é não; ou é frio, ou é quente; ou é crente, ou não é. Não adianta apelar. No reino de Deus não há meio termo, jeitinho brasileiro ou coisa semelhante.
O resultado desta indiferença, desta mornidão, é o desprezo e o nojo de Cristo descrito no versículo 16: “...estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.”. Cristo está desgostoso, Ele rejeita totalmente este tipo de cristianismo baseado em conveniências. O verdadeiro cristianismo tem cruz, tem moral e tem vida. O que vemos hoje é um cristianismo de facilidades, um cristianismo sem cruz. A mensagem da cruz foi esquecida. E a pergunta que nos vem é: Que cristianismo estamos vivemos? Que cristianismo estamos pregamos?
No texto, o termo grego emew (emeo) significa cuspir ou vomitar. Daí deriva emético, que é um agente que causa o vômito. A igreja ou a pessoa morna é repelente, espiritualmente falando. E tal condição provoca uma ação decisiva da parte de Cristo.
Laodicéia apostatou por causa de sua condição, de sua indiferença e acomodação. Portanto irmãos, todo cuidado é pouco. Qual é a nossa condição diante de Cristo?
II – Ela era uma igreja que tinha uma vida de aparências (v. 17,18)
Uma vida de teoria sem prática é vazia. Uma vida de prática sem teoria é apenas movimento sem sentido. Nada pode prejudicar mais a vida espiritual da igreja, ou de um cristão, do que a falta de coerência.
Muitas pessoas gostam de viver de aparências, de mostrar aos outros o que na realidade não são. Nos dias de hoje vivemos a crise de ser e de ter. As pessoas acabam sendo avaliadas pelo que tem e não pelo que são. Podemos dizer que Laodicéia vivia também esta crise. Laodicéia avaliava a si mesma segundo os padrões de riqueza material pois estava imersa na mentalidade do mundo. Isto mostra a sua ignorância espiritual. Ela tinha muito, porém não era nada. Entre ter e ser existe um abismo enorme.
Para termos idéia da riqueza da cidade, Laodicéia foi destruída por um terremoto nos anos 60-61 d.C. Ela não solicitou dinheiro ao imperador como as outras cidades da região. Isto também mostra o porque da mentalidade da igreja. Se eles adoravam também ao imperador, não provocavam a ira das autoridades civis, não sofriam perseguição, martírio e nem confisco das propriedades. Laodicéia era bem diferente de Esmirna.
Esta mentalidade mundana, corrompida e materialista escondia a real situação da igreja. A situação era precária, e Cristo nos mostra isso por meio de cinco coisas:
· “Não reconhece, porém, que é miserável,...”. Que condição! Rica materialmente, miserável espiritualmente. Eles tinham de tudo de bom e do melhor, mas a alma dos membros de Laodicéia ia morrendo. Dentre todas as igrejas do Apocalipse, Laodicéia é a que se encontrava em pior estado. Quando caminhamos longe de Deus somos dignos de dó.
· “...digno de compaixão,...”. Os membros da comunidade de Laodicéia pensavam na felicidade a partir do ponto de vista material, do ter. A mentalidade é simplesmente mundana, a sua “religião” era uma capa, aparências e nada mais. A fé não exigia transformação espiritual e eles não tinham quaisquer imperativos morais. Laodicéia era uma igreja de facilidades e não felicidades. Espiritualmente era consumida pela tristeza de não ser. Não é pelo que temos que a felicidade baterá nossa porta. Esmirna não tinha nada, mas era verdadeiramente rica e feliz (2:9). Quando baseamos a nossa vida no ter, criamos dentro de nós um espírito egoísta, ganancioso e por vezes ansioso de querer sempre mais. Será que você pode dizer que é feliz?
· “...pobre,...”. Eles tinham tudo e ao mesmo tempo não tinham nada. A riqueza material escondia a real situação da igreja. Cristo abominava Laodicéia por causa de seu estilo soberbo de viver. Ou vemos em Cristo a nossa maior riqueza ou tudo será em vão.
· “...cego,...”. Laodicéia contava com uma famosa escola de medicina, sendo produtora de muitos medicamentos. Contava também com meios de combate à cegueira física. No entanto, faltavam-lhe os meios para combater a cegueira espiritual. A cegueira espiritual é um desastre para a comunidade. É com ela que não percebemos as promessas de Deus, que não enxergamos o pecado e que vivemos longe de Deus. Eles tinham olhos só para o material, só para o aqui e o agora, enquanto a vida espiritual vivia acabada.
· “...e que está nu.”. Laodicéia era famosa por sua indústria de lã e sua produção de excelentes peças de vestuário. Os cristãos andavam elegantemente, mas espiritualmente estavam nus, ou seja, a vergonha da carnalidade era óbvia. A nudez reflete a real situação desta igreja.
Isto pode acontecer tanto de modo coletivo (igreja) como no individual (cristão). Quando vivemos de aparências a nossa vida espiritual se torna um desastre. Por isso Cristo no verso 18 propõe a mudança a partir daquilo é verdadeiro. Vemos portanto o seguinte:
· “...Compre de mim ouro refinado no fogo,...”. Ou seja, Cristo considerou Laodicéia pobre, partindo de sua condição espiritual. Aqui vemos um convite de Cristo para que a igreja compre a verdadeira riqueza que é espiritual, a partir do arrependimento e do interesse pelas coisas espirituais. E este ouro é puro, refinado no fogo, em contrastes com as outras riquezas.
· “...compre roupas brancas e vista-se para cobrir a sua vergonhosa nudez;...”. Mesmo Laodicéia sendo um centro da indústria do vestuário, os cristãos andavam nus. Precisavam de vestes brancas, ou seja, que apontasse para eles a verdadeira santidade de vida. Em alguns países do Oriente o desnudamento era e é usado para envergonhar publicamente alguém (II Sm. 10:4; Is. 20:4).
· “...e compre colírio para ungir os seus olhos e poder enxergar.”. O termo grego para colírio é kollourion (kollurion), que seria um rolo de pão grosseiro. A conexão aqui com um medicamento para o tratamento dos olhos é que talvez fosse um tipo de emplastro feito de massa de pão, tratando infecções. Sabemos que em Laodicéia havia o famoso pó frígio empregado pela escola de medicina para o tratamento dos olhos. A ação do Espírito Santo em nossa vida ilumina e esclarece. Com ele podemos perceber melhor a vontade de Deus.
É por esta razão, por estar acomodada, longe de Deus e sua vontade que Cristo clama que Laodicéia se arrependa o quanto antes. Nisto percebemos algumas coisas:
1º) Cristo está pronto a castigar a igreja (v.19; Hb. 12:6-11; Jó 5:17,18). Não existe amor de Deus sem justiça, e nem justiça de Deus sem amor. Pelo visto os crentes em Laodicéia eram crentes genuínos, embora de qualidade muito abaixo do esperado. Eles foram repreendidos e disciplinados como filhos. O termo grego usado é paideuw (paideuô) e significa no sentido mais lato “criar”, mas também pode ser traduzido por “educar, corrigir, dar orientação, disciplinar”. Aqui Cristo visa corrigir a igreja, curar e restaurar, e não destruir, prejudicar ou reprovar a comunidade. Por esta razão Cristo os chama ao zelo e ao arrependimento, ou seja, os convoca para mudarem de vida espiritual. Cristo os quer fervorosos, quentes e transformados pelo Espírito Santo.
2º) Cristo está à porta, querendo entrar e manter comunhão (v.20). Alguns acreditam que esta será o retrato da igreja no fim dos tempos: Cristo do lado de fora da igreja. E amados, se analisarmos de forma crítica já podemos ver isto em nossos dias. Em muitas igrejas Cristo não é mais o centro da vida, da adoração e da celebração. O homem tomou o lugar, e Jesus se tornou apenas um detalhe.
Jesus disse que se a igreja abrisse a porta iria acontecer que: “entrarei e cearei com ele, e ele comigo.”. No Oriente, a participação em uma refeição comum era prova de confiança e afeto. Cristo queria renovar a comunhão com sua igreja, a confiança e o afeto perdido por causa do pecado. Eles precisavam renovar a intimidade com o Senhor.
3º) Existe a promessa ao vencedor (v.21). “...darei o direito de sentar-se comigo em meu trono,...”. Na literatura judaica antiga podemos ver esta idéia como referência a participação dos justos na glória do Senhor. Não somente isto. O vencedor participará do governo do Messias, reinando com Ele (Ap. 2:10,26; 20:4). Nunca é demais lembrar que o lado direito significa posição de maior honra possível.
A igreja de Laodicéia precisava mudar. Mas para haver mudança real e completa é indispensável a ação do Espírito Santo na vida da igreja e do cristão. “Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas.”. |
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