Parte 04 - A Igreja de Esmirna
Texto: Apocalipse 2:8-11

Veremos agora um dos textos mais emocionantes do livro de Apocalipse. A igreja de Esmirna deve ser para nós um exemplo de fé e perseverança. Mas antes, vamos conhecer um pouco sobre a cidade de Esmirna:



· Ficava a uns cinqüenta quilômetros (50 Km) ao norte de Éfeso, e também tinha um porto marítimo próspero;

· Os gregos colonizaram aquela localidade, mas a cidade foi construída por Lisímaco (301 – 281 a.C.). Desse tempo em diante tornou-se uma das mais prósperas cidades da Ásia Menor;

· Esmirna foi aliada fiel de Roma muito antes que esta se tornasse uma potência mundial. Em 195 a.C. foi construído um templo em honra à deusa de Roma. Naturalmente isto fazia de Esmirna um lugar de adoração ao imperador. Em 26 d.C., quando diversas cidades competiam pela honra de construir um templo ao imperador Tibério, somente Esmirna teve este privilégio;

· Esta cidade competia com Éfeso e Pérgamo pelo título de primeira da Ásia, isto devido ao forte comércio;

· Esmirna também foi a terra da fábula de Dionísio, um deus que supostamente fora assassinado, mas que ressuscitara. Era o local da celebração dos Jogos Olímpicos, e contava com um dos maiores anfiteatros da Ásia, hoje em ruínas;

· Atualmente a cidade que ocupa o local antigo se chama Izmir, e é a maior cidade da Turquia asiática. O nome da cidade significa “mirra”.

· Quanto à igreja de Esmirna, não sabemos dizer ao certo os primórdios da igreja, embora muitos achem que ela nasceu como resultado dos trabalhos de Paulo na Ásia Menor. Segundo uma obra antiga[1], Paulo teria visitado Esmirna a caminho de Éfeso. O texto de Atos 19:10 mostra que muitas cidades foram evangelizadas naquela área fruto do ministério Paulino, e que não há menção específica no livro de Atos.



Cristo já se identifica com a igreja de Esmirna logo na saudação: “Estas são as palavras daquele que é o Primeiro e o Último, que morreu e tornou a viver.”(v.8). Diferente do mito de Dionísio, Cristo realmente morreu e ressuscitou. Esta igreja sofreu uma perseguição violenta por causa de Cristo e conseqüentemente teve muitos mártires. Nesta palavra há um consolo de Cristo a esta igreja que sofre.

Muitas vezes reclamamos sem na realidade termos razão para isto. A igreja de Esmirna não tinha a liberdade que temos, não tinha um templo como o nosso e muito menos um som que possuímos. Mas ela tinha algo que muitas igrejas hoje não tem: fidelidade a Cristo. Será que se sofrêssemos uma perseguição como Esmirna, seríamos fiéis? Até que ponto a nossa fidelidade a Cristo é verdadeira? Minha fidelidade é um testemunho vivo? Ou estou acomodado, vivendo a vida cristã da mesma forma?

Em nosso estudo hoje o Senhor quer nos ensinar algumas coisas:



I – Cristo conhecia a situação de Esmirna (v.9)



O Senhor Jesus disse: “Conheço as suas aflições...”. No grego o termo qliyiV (thlipsis) significa “pressão, opressão”. É um termo derivado de qlibw (thlibo) que significa “pressionar, pressionar junto, estreitar, oprimir, afligir”. Normalmente este termo tem o sentido de perseguição, aquela forma de pressão que nos atinge devido à má vontade e ao ódio de nossos semelhantes.

Cristo diz que conhece a tribulação, a aflição deles, a perseguição romana e os martírios. Assim como era com Esmirna, hoje também Ele nos diz que conhece a nossa tribulação. Ele sabe quais são as dificuldades nossas como igreja. O importante é saber se estamos sendo fiéis a Cristo no meio da luta.

O Senhor também diz que conhece “...a sua pobreza; mas você é rico!”. Esta declaração parece contraditória, mas não é. Aqueles crentes eram pobres, mas não porque não trabalhassem – o que é uma causa comum da pobreza – mas devido às perseguições. Suas propriedades foram confiscadas ou destruídas, e eles sofriam o encarceramento. Foram reduzidos a nada pela ira do imperador, e a simples sobrevivência física tornou-se um problema pela falta de alimento. O escritor aos Hebreus 10:34 nos diz: “Vocês se compadeceram dos que estavam na prisão e aceitaram alegremente o confisco dos seus próprios bens, pois sabiam que possuíam bens superiores e permanentes.”.

Mas a riqueza destes irmãos, onde estava? Nas riquezas espirituais. Comparando Esmirna com Laodicéia podemos ver o contraste. Esmirna era pobre materialmente e rica espiritualmente. Laodicéia era rica materialmente, porém inteiramente pobre quanto as riquezas espirituais.

Muitas vezes somos tentados a ter uma vida de “sucesso”, de “bem-estar”, dinheiro, contas bancárias, etc. Certamente esse é o padrão do mundo que vê o homem pelo que ele tem e não pelo que ele é. A isso chamamos de “crise de ser e de ter”[2]. O cristão não deve ser movido pelo padrão do mundo, mas pelo padrão de Cristo. Riqueza não é pecado. Ter casa, carro e outros bens não é o problema. Mas quando a vida ganha contornos mais materialistas que espirituais, quando o nosso investimento é mais material que espiritual, pecamos contra o nosso Deus (ver I Tm. 6:17-19). Champlin em seu comentário deste texto escreveu: “Existem riquezas que nos são conferidas pelo ‘ouro testado no fogo’. O fogo representa agonia; mas as riquezas assim adquiridas são permanentes, em contraste com as formas terrenas.”[3].

Temos sido como Esmirna ou como Laodicéia?

E o Senhor disse mais uma coisa que conhecia daquela igreja: “Conheço a blasfêmia dos que se dizem judeus mas não são, sendo antes sinagoga de Satanás.”. A blasfêmia partia dos judeus, aos quais Cristo diz: “não são”. Os judeus ajudavam os romanos na perseguição aos cristãos. O judaísmo era forte em Esmirna e hostil ao cristianismo. O judaísmo, em contraste com o cristianismo, era uma religião “legítima”, sendo permitida a sua existência no império romano.

Porém estes judeus, que não são, perdem a qualidade e o direito de se chamarem Israel de Deus por causa da perseguição aos cristãos. Quais são os verdadeiros judeus? São aqueles que crêem no Messias (Rm. 2:28,29; Fl. 3:3). Ladd diz que “João faz uma distinção real entre o Israel literal – os judeus – e o Israel espiritual – a igreja.”[4]. No evangelho de João, Jesus acusa certos líderes judeus a estarem ligados com o próprio Satanás (Jo. 8:44). Justino Mártir acusou os judeus de, nas sinagogas, amaldiçoarem em público a todos quanto confiassem em Cristo. Quando Cristo diz: “Conheço a blasfêmia...”, Ele estava dizendo que conhecia a situação difícil, as duras palavras que muitas vezes são difíceis de suportar, as falsas acusações e as injúrias. Quantas vezes não somos blasfemados porque confiamos em Cristo? Será que temos a mesma fidelidade de Esmirna?



II – Cristo não descarta o fim da luta, pelo contrário, maior perseguição (v. 10)



Aqui podemos encontrar o Senhor Jesus novamente consolando a igreja de Esmirna. Parece que não, mas é verdade. O Senhor começa dizendo: “Não tenha medo do que você está preste a sofrer.”. Nós não gostamos de sofrer. Muitas vezes imaginamos a vida cristã como um “mar de rosas”, só bênçãos, vitórias e louvor. Nisto o cristão não tem liberdade de escolha. A perseguição, as tragédias, a tribulação, muitas vezes são bênçãos de Deus em nossa vida que não compreendemos. Nem Cristo foi poupado de qualquer espécie de sofrimento, nem mesmo da morte vergonhosa e agonizante da cruz; mas no fim Ele triunfou.

Muitas vezes ficamos perplexos com os nossos sofrimentos e de outros irmãos. De onde vem o mal? De Deus ou do diabo? O mal vem do próprio homem? Leiamos Rm. 8:18,28 e II Co. 4:17. Vamos esclarecer algumas coisas:



1º. Não devemos nos esquecer que vivemos em um mundo natural, e que tudo que acontece com os outros, pode acontecer conosco.

2º. O mal pode ser conseqüência daquilo que o homem semear (Gl. 6:7).

3º. O mal também é uma ação diabólica (Jo. 10:10 a). Faz parte da natureza do diabo.

4º. Deus também permite que o mal nos aflija em forma de disciplina, para o desenvolvimento espiritual, a fim de que a bênção venha do sofrimento (At. 14:22).



A exortação de Cristo é não temer. O sofrimento também tem a sua ação curadora.

Depois o Senhor vai dizer: “O Diabo lançará alguns de vocês na prisão para prová-los, e vocês sofrerão perseguição durante dez dias.”. O N.T. defende a real existência do Diabo, a suma-essência do mal, tal como expõe a real existência do Deus pessoal, o Sumo bem.

Satanás mostra-se ativo nesta esfera terrena, contando com muitíssimos agentes para confundir aos homens e prejudicá-los. João via nas perseguições romanas, com a ajuda dos judeus, a obra de Satanás.

Muitos cristãos foram realmente encarcerados, principalmente sob a alegação de “traição”, porque os cristãos se recusavam a participar do “culto ao imperador”, em que o imperador era adorado como “deus” e as pessoas tinham que prestar lealdade ao seu suposto “gênio”, seu guia divino e protetor do estado romano.

Hoje somos forçados a outros “cultos”, o “culto ao consumo, ao dinheiro, ao sucesso”, a traição dos valores morais e éticos, e tantos outros que ferem a santidade de Deus. Até que ponto estamos traindo aos “imperadores” deste mundo? Ou estamos traindo a Cristo, o Senhor? Sim porque quando cedemos ao mundo nós estamos traindo a Cristo e o crucificando novamente (Hb. 6:6). O escritor aos Hebreus falando sobre os heróis da fé escreveu sobre estes que anonimamente sofreram por causa do evangelho: “outros enfrentaram zombaria e açoites; outros ainda foram acorrentados e colocados na prisão,...O mundo não era digno deles.”(Hb. 11:36, 38a).

Além de lançados na prisão, os cristãos foram postos à prova. Testados por meio de espancamentos, insultos e privações de alimentos nas celas escuras, frias e imundas das prisões. É por meio desta prova que eles teriam de provar sua fidelidade a Cristo.

Ser crente hoje é fácil. É moda chegar na televisão e dizer que é evangélico, de tal igreja, ovelha de tal pastor ou pastora, etc. Mas é na hora da perseguição, da prisão, da dor, da vergonha, que vemos os verdadeiros crentes. John Wilcliff, após ter sido condenado por heresia, só por ter pregado o verdadeiro evangelho, morreu na fogueira cantando salmos. Inácio de Antioquia disse: “Sou trigo de Deus, e os dentes das feras hão de moer-me, para que possa ser oferecido como limpo pão de Cristo”.

Quanto à tribulação de dez dias há diversas interpretações:



1º. Dez seria o número do sistema mundial, pelo que esta tribulação seria um violento assalto do maligno sistema político de Roma contra a igreja cristã.

2º. Provavelmente indica um “período curto”. A carta de Inácio a Esmirna afirma: “Eles desprezaram às torturas deste mundo, comprando ao custo de ‘uma hora’, o livramento da punição eterna”[5].

3º. A referência também é histórica. A igreja sofreu sob dez perseguições distintas, desde o reinado de Nero até Diocleciano. As perseguições movidas por este último foram as mais severas de todas, e duraram exatamente dez anos. Durante este tempo a matança de cristãos foi grande. Em uma só catacumba foram encontrados os remanescentes ósseos de 174 mil cristãos, aproximadamente. Os cristãos sofreram sob os imperadores Nero, Domiciano, Trajano, Marco Aurélio, Severo, Máximo Décio, Valeriano, Aurélio e Diocleciano.



III – Cristo promete a vitória (v.10c, 11)



Mesmo mostrando que a luta iria continuar, Cristo promete a igreja de Esmirna à vitória. Para tanto se faz necessário ser fiel. Por isto o Senhor disse: “Seja fiel até a morte...”. Aqui indica o martírio. Esmirna foi, acima de todas as outras, a “igreja dos mártires”.

O exemplo desta comunidade nos leva a questionar: Até que ponto temos sido fiéis a Cristo? Que tipo de “morte” queremos evitar? Sim, talvez você morra para os seus familiares, ou para aqueles que se dizem seus “amigos”. Qual o martírio a enfrentar? Se você for fiel até a morte, seja ela qual for, Ele dará a coroa da vida.

O nome Esmirna significa “mirra”, uma fragrância usada no fabrico de perfumes e embalsamentos. Esta substância é extraída de uma planta por esmagamento. Os cristãos daquela localidade foram literalmente esmagados, tornando-se um perfume de suave cheiro a Deus.

Cristo diz que se eles forem fiéis até a morte eles receberiam a coroa da vida. Há várias interpretações quanto a esta parte:

1º. Seria uma metáfora que expressava a idéia dos competidores gregos. O corredor que era vencedor recebia a coroa de louros. Mas também pode estar aqui a idéia da coroa usada na coroação real. Aqueles crentes reinariam com Cristo.

2º. A “coroa” é uma representação poética da “recompensa ou do galardão”. Os galardões não consistirão daquilo que recebemos. Devemos rejeitar esta visão materialista. O galardão consiste daquilo em formos transformados, para podermos servir ao Deus eterno.

3º. Aqui é usado no genitivo de oposição, no grego, e que poderia ser mais bem traduzido como “a coroa que é vida”. A vida eterna está em foco.



No verso 11 temos a promessa aos vencedores: “O vencedor de modo algum sofrerá a segunda morte.”. Em cada uma das sete cartas há um “vencedor”. Em cada época, haverá vencedores, a despeito dos problemas e das crises diferentes que tiverem de enfrentar.

Para o vencedor existe uma promessa maravilhosa, e não é pequena. Para estes há bênçãos espirituais, e estas não podem ser conferidas aqueles que não se atiram na batalha. Ou seja, aquele tipo de crente preguiçoso, relaxado, indisciplinado, medroso, não receberá a bênção do Senhor, e jamais será chamado de vencedor.

Na vida cristã, a lealdade a Cristo precisa ser mantida a todo custo porque, de outra maneira, não podemos ser transformados a imagem de Cristo. Somente os vencedores são os verdadeiros crentes. Os vencedores do Senhor que venceu a morte não sofrerão a “segunda morte”, ou seja, a ruína do destino original da alma, a separação eterna de Deus. Isto é uma promessa maravilhosa e confortadora para uma igreja perseguida.

Há algumas lições que podemos tirar deste texto:



· Cristo conhece nossa situação;

· A luta e a perseguição podem ser excelentes meios de aperfeiçoamento da vida espiritual;

· Cristo nos chama a fidelidade;

· Ele nos promete a vitória e a bênção. Podemos sofrer aqui, mas existe uma coroa no céu que nos espera, uma coroa de vida eterna.



Eu gostaria de terminar esta parte contando a história de Policarpo, que era discípulo pessoal do apóstolo João, “principal pastor” da igreja em Esmirna. O nome Policarpo significa “muito fruto”, e nasceu em 69 d.C. e morreu em 159 d.C.

Ele foi levado a arena, que era o lugar dos jogos olímpicos. Foi-lhe ordenado que se retratasse e que abandonasse a Cristo, dando sua lealdade ao imperador romano como se ele fosse um deus. Foi-lhe ordenado que dissesse: “Fora com os ateus”, isto é, com os cristãos. Isso ele fez, mas fazendo um gesto com a mão, indicando a população que estava nas arquibancadas. Foi-lhe ordenado a jurar pelo “gênio” de César, confessando a divindade do imperador. Ele recusou. Ele foi condenado a morrer na fogueira. Os pagãos instavam com ele para que amaldiçoasse a Cristo, e ele respondeu: “Por oitenta e seis anos tenho sido servo de Cristo, e ele nunca me fez mal algum. Como posso blasfemar de meu rei que me salvou?”.

Que o exemplo de Policarpo, que foi fiel até a morte, nos encha o coração de esperança e de força, a fim de sermos fiéis também a Cristo e seu evangelho.
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