Parte 03 - Carta à Igreja de Éfeso
Texto: Apocalipse 2:1-7
Entramos agora em nosso estudo em uma das partes mais interessantes do livro de Apocalipse, as cartas as sete igrejas da Ásia. Vale a pena lembrarmos que estas igrejas realmente existiram e que o texto está sendo dirigido a elas. Isto não significa que as advertências que passaremos a ver não sirvam para hoje, pelo contrário, a visão é profética. Falava aos irmãos daquela época e ainda fala conosco hoje, nos preparando para a vinda do Cordeiro.

Éfeso tinha algumas características interessantes que vale a pena entendermos agora:



· Era a principal cidade da Ásia. No primeiro século tinha o porto mais importante de toda Ásia Menor;

· Era um centro religioso, político e comercial. Era a cidade da deusa-mãe (para os gregos Ártemis, para os romanos Diana; cf. Atos 19:35). O templo de Diana figurava como uma das maravilhas do mundo antigo. Em 260 d.C. o templo foi destruído pelos Godos, e no século XIV os Turcos dispersaram os habitantes que ali restaram;

· A igreja de Éfeso era a mais importante de toda a província. Aparentemente foi fundada por Áquila e Priscila. Eles chegaram juntamente com Paulo de Corinto (At. 18:18). Paulo chegou a viver dois ou três anos em Éfeso;

· A cidade também era o centro de todos os tipos de práticas supersticiosas, conhecida em todo mundo antigo por suas artes mágicas (At. 19:19).



Tudo isto nos ajudará a entender o que Cristo queria falar as igrejas da Ásia, e porque não, para nós também. A visão é maravilhosa, e nos leva a uma reflexão sobre o que pensamos ser a igreja. O que é igreja finalmente? Será que são as paredes do templo? A denominação? Ou nós como corpo vivo e atuante?

O texto nos diz que Jesus é aquele “tem as sete estrelas em sua mão direita e anda entre os sete candelabros de ouro”. A idéia aqui é que Ele está segurando com firmeza os líderes da igreja. Ele anda no meio dos candelabros indicando sua vigilância constante. É Seu poder e presença no meio da igreja. Neste caso é um andar judicial. Cristo não está satisfeito com a condição da igreja e terá de baixar juízo, caso não haja arrependimento.

Muitas vezes nos acostumamos com a rotina de nossa vida. Quando isto atinge a vida espiritual se torna um perigo. Neste caso se faz necessário voltar ao primeiro amor. Podemos perceber três declarações de Cristo, e uma promessa, que deverá servir para nossa reflexão, com o propósito de sermos sacudidos de nosso marasmo espiritual:



I – As virtudes da Igreja em Éfeso (v. 2, 3)



Jesus começa destacando estas virtudes. A primeira destas virtudes era o serviço cristão:



- “Conheço as suas obras,...”. As “obras” é um termo amplo, indicando não apenas aquilo que poderíamos chamar de “serviço, trabalho ativo”, e sim as condições espirituais em geral da igreja. Seria todo o comportamento e maneira de viver. O termo equivale à expressão que se encontra no Antigo Testamento, “temor do Senhor”, expressão esta usada a fim de exprimir as condições espirituais em geral daquele que professava tentar agradar a Deus, reconhecendo o Seu Senhorio.

- “...o seu trabalho árduo...”. Nas traduções mais comuns trás a palavra “labor”, que vem do grego kopoV (kopos), e indica “labor até a exaustão, labuta”. Essa palavra indica o serviço da igreja em meio às pressões sofridas nas perseguições.

- “...e a sua perseverança.”. Aqui no caso, perseverança significa bem mais do que nós entendemos por “paciência”, isto é, suportar tudo sem reclamar. A palavra significa “constância sob circunstâncias adversas”. O grego upomonhn (hypomonen) pode ser traduzida por “resistência, permanência, constância”. A luta era grande, mas a resistência deles também era.



A segunda virtude era no cuidado doutrinário. Nós podemos ver isto bem claramente em três frases:



- “Sei que você não pode tolerar homens maus,”. Eles se recusavam a mostrar tolerância em favor de homens que tentavam mudar a natureza “moral” da igreja, retirando do evangelho seu “imperativo moral”.

- “...que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são,”. Eles testavam aos espíritos. O apóstolo João em sua Primeira Epístola nos adverte: “Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” (I Jo. 4:1). Muitos pregam coisas que nada tem a ver com o Evangelho de Jesus Cristo. E isto deve nos manter alerta, procedendo da mesma forma dos efésios.

- “...e descobriu que eles eram impostores”. Muitos se dizem “pregadores” do Deus vivo, mas quando confrontados com a Palavra do Senhor, percebemos na realidade quem são. A igreja de Éfeso soube utilizar isto para desmascarar os falsos apóstolos.



Estas virtudes levaram o Senhor Jesus a elogiar a igreja no verso três: “Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome, e não tem desfalecido”. Somos sempre bem-aventurados quando sofremos perseguição por causa do nome do Senhor (cf. Mt. 5:11, 12).



II – O erro da Igreja em Éfeso (v. 4, 5)



O Senhor após ter elogiado a igreja de Éfeso, faz uma declaração sobre onde estava o erro deles: “Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor.”. É interessante notar que, ao mesmo tempo em que eles tinham virtudes notáveis, também cometiam erros que os podia levar a destruição, pois afetava a conduta cristã.

Eles abandonaram o primeiro amor. O termo que aparece no grego é afhkeV (aphekes) que pode significar “partir, ir-se embora, relaxar, dispensar”. A palavra era usada para indicar repúdio ou divórcio. Aquele sentimento que existia no início já não existia mais. Diante da perseguição eles estavam firmes, mas quanto à devoção ao Senhor Jesus, que é à base de todo trabalho e lealdade, eles estavam repudiando. Ladd diz que “...a sua luta com os falsos mestres e seu ódio por ensinos heréticos parece que trouxeram endurecimento aos sentimentos e atitudes rudes a tal ponto que levaram ao esquecimento da virtude cristã suprema que é o amor[1]”.

Podemos perceber aqui no verso 5 três verbos onde Cristo chama a atenção de sua igreja para que ela volte ao amor original e verdadeiro:



- “Lembre-se de onde caiu!”. A exortação aqui é em relação à memória piedosa deles, procurando lembrá-los dos dias anteriores onde o amor a Cristo era mais intenso e que os motivava a servir de forma abençoadora. Devemos sempre parar e tentar nos lembrar de onde caímos para voltarmos para Deus. Aqui reflete o auto-exame da qual o cristão não pode desprezar.

- “Arrependa-se...”. Temos aqui a palavra grega metanohson (metanoeson), que significa “mudar de mente, pensar diferentemente”, sugere uma atitude contínua em contraste com uma ruptura decisiva. Sem arrependimento não há como sairmos do pecado. Muitos confundem remorso com arrependimento. No remorso a pessoa entende o erro, mas não tem vontade de abandonar o pecado. No arrependimento há a consciência do pecado e um impulso de dar meia volta. Sem um verdadeiro arrependimento não há confissão de pecados. A lembrança de onde foi a queda leva o cristão a arrepender-se. Davi na sua confissão demonstra arrependimento diante de Deus (Sl. 51:3-5, 9, 10).

- “...e pratique as obras que praticava no princípio.”. Literalmente no grego aqui é de “faz”, dando a idéia de uma atitude definitiva. Depois do arrependimento e da confissão, o Senhor pede a igreja que retorne à prática das primeiras obras. Ou seja, aquele amor primeiro, a disposição e o desejo que tinham nos primeiros dias da conversão. Muitas vezes os cristãos se acostumam em realizar a obra de Deus e esquecem da força motivadora da obra cristã que é o amor. Isto é muito perigoso porque, a partir do momento que você se acostuma a realizar um serviço, o seu trabalho se torna mecânico. Para servirmos a Deus com alegria devemos renovar em nós aquele primeiro amor, caso contrário, o nosso trabalho dentro da causa de Cristo será um verdadeiro fardo.



A igreja de Éfeso estava abandonando princípios espirituais primários que punham em risco a própria sobrevivência da igreja. Por isto Jesus admoesta com rigor no final do verso 5: “Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele.”. Aqui nós vemos a palavra de Cristo alertando-os quanto ao procedimento cristão. A visão aqui é que o Senhor nos dá oportunidades para mudarmos, para arrependermos, a fim de realizarmos sua vontade. Só que Ele exige pressa em fazermos aquilo que devemos fazer. A igreja poderia deixar de existir se não desse ouvidos a voz do Senhor.





NOTA HISTÓRICA


Esta palavra de Cristo realmente se cumpriu. Éfeso foi a sede de uma longa linha de bispos orientais. O terceiro concílio geral aconteceu ali em 431 d.C. com o propósito de condenar a cristologia de Nestor. A igreja que recebeu a advertência ouviu a voz de Cristo. Mas infelizmente isto não permaneceu, sendo esta região hoje influenciada pelo islamismo.



III – O ponto positivo da Igreja em Éfeso (v.6)



O Senhor Jesus destaca algo na igreja de Éfeso: “Mas há uma coisa a seu favor: você odeia as práticas dos nicolaítas, como eu também as odeio.”. Não há certeza de quem eram os “nicolaítas”. Possivelmente era uma seita herética que surgiu nos primeiros anos da igreja. O que sabemos deste grupo só aparece no Apocalipse, em que João faz mais uma menção na carta de Pérgamo (2:15). Pelo que lemos, os “nicolaítas” era um grupo herético que usava, possivelmente, um modo de vida libertino[2].

Jesus elogia a igreja de Éfeso porque ela é totalmente contra este grupo. Quando Jesus conclama a igreja a voltar ao primeiro amor não significa que eles eram relaxados quanto às questões doutrinárias. Quanto à doutrina eles eram exemplares, não aceitavam heresias. Vemos, portanto que doutrina e prática traçam caminhos paralelos. Éfeso era doutrinariamente segura, mas a prática ficou relaxada.

Deve haver um equilíbrio entre doutrina e prática. O elogio de Jesus nos mostra a importância da doutrina dentro da igreja, para que ela não seja uma instituição a mais, levada por qualquer vento (cf. Ef. 4:11-16). Agora, firmeza doutrinária não significa insensibilidade. Muitas vezes a igreja tropeça na caminhada por não perceber que os tempos mudam. Com isto a prática muda também. Nós não podemos confundir Ortopraxia (Prática) com Ortodoxia (Doutrina). O método muda, a doutrina não. Devemos ser firmes naquilo que cremos, mas não podemos nos esquecer das primeiras obras feitas com amor. Firmes na doutrina sem sermos legalistas.



IV – A promessa para a Igreja em Éfeso (v.7)



O Senhor por fim diz a Éfeso: “Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor darei o direito de comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus.”.

Que promessa maravilhosa! Isto chama muita a nossa atenção, não somente aqui mas em todas as cartas dirigidas às igrejas da Ásia: A promessa de Jesus aos seus a quem Ele chama de “vencedores”. O verdadeiro cristão é um vencedor.

A promessa de Jesus nos leva de volta ao Jardim do Éden. Isto significa que, aquilo que foi perdido com o pecado, será reconquistado em Cristo pelos vencedores. Este “comer da árvore da vida” é uma visão simbólica, e aponta para a obtenção da vida eterna, mostrando assim que a vida espiritual será sustentada pela própria presença de Deus. Ao falar da “árvore da vida”, Jesus fala de muito mais do que uma simples volta ao Éden. Ele fala de um tipo de vida que procede do próprio Deus Pai, a imortalidade.

Que bênção. A promessa maravilhosa de Cristo para os seus é tremenda. E como nos diz o escritor aos Hebreus 10:23: “...aquele que prometeu é fiel.”. Portanto, podemos crer sem reservas. O que Ele nos prometeu, cumprirá. Mas é importante salientar que esta promessa é somente para os vencedores, para aqueles que levam Deus a sério, e entenderam o que é ser de Cristo Jesus.



Podemos trazer lições importantes para nós a partir daquilo que Cristo falou a Éfeso:



· Deus nos conhece muito bem, e não há nada que possamos esconder dEle. Ele sabe de nossas virtudes e dos nossos defeitos. Portanto, não adianta levarmos Deus na brincadeira. Quem sai perdendo somos nós mesmos.

· Devemos ter cuidado para não nos tornarmos religiosos, acostumados a fazer as coisas como por obrigação. O amor por Jesus, aquele primeiro amor, lindo, simples e dedicado, não pode ser esquecido. Não adianta realizar a obra sem amor.

· Devemos reconhecer os nossos erros diante do Senhor. Fazer isto nos mostra que somos corajosos e que entendemos o que é servir ao Senhor.

· Ver que a doutrina é importante, mas que a prática deve refletir o que cremos. Doutrina sem prática é religiosidade; prática sem doutrina é imaturidade. Ambas andam juntas, sendo que uma não muda (doutrina) e a outra acompanha a mudança dos tempos sem se corromper com o mundo (prática).

· Jesus é fiel em cumprir a sua promessa. Mas Ele faz isto com os vencedores, aqueles que lhe são fiéis.
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