Parte 29 - Adoração celestial e a vinda de Cristo
Ap. 19:1-21



Este capítulo é muito bonito pois traz consigo uma mensagem de esperança maravilhosa para os servos de Deus. Este capítulo pode ser dividido em duas partes. A primeira vai nos mostrar a alegria no céu pela queda de Babilônia; e a segunda parte nos mostra a vinda de Cristo. Com certeza os primeiros leitores se encheram de esperança, entendendo que o Senhor da história, um dia, transformará todas as coisas.

A primeira parte vai dos versos 1 a 10. Neste texto podemos ver quatro expressões de adoração. A primeira está nos versos 1 e 2: “Depois disso ouvi nos céus algo semelhante à voz de uma grande multidão, que exclamava: ‘Aleluia! A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus, pois verdadeiros e justos são os seus juízos. Ele condenou a grande prostituta que corrompia a terra com a sua prostituição. Ele cobrou dela o sangue dos seus servos.’”.

Quem estaria cantando isto? João não nos diz, mas com certeza são os anjos e todos os remidos que já estiverem com o Senhor nos céus. O cântico é iniciado com “Aleluia”, que é uma palavra hebraica que significa “Louve a Yahweh”. No livro dos Salmos aparecem várias vezes, iniciando ou terminando o salmo (104-109; 111-113; 117; 135; 146-150). Os Salmos 104-109 são conhecidos como “Grande Halel”, e são entoados na Páscoa e na Festa dos Tabernáculos. Este “Aleluia” é dado Aquele que tem a “salvação, a glória e o poder”. No verso 2 o cântico diz que Deus é verdadeiro e justo em seus juízos demonstrados contra Babilônia. Esta ação não será um ato de vingança de Deus, e sim uma demonstração de Sua justiça. A cidade que corrompia o mundo e que matava os servos de Deus cairá, pois Ele fará justiça aos seus servos (cf. 6:10).

O segundo cântico está no verso 3: “E mais uma vez a multidão exclamou: ‘Aleluia! A fumaça que dela vem sobe para todo o sempre.’”. Aqui vemos uma figura poética emprestada dos profetas, e que indica a destruição total da cidade de Babilônia (Is. 34:10). O fogo atômico é visto por alguns estudiosos aqui nesta parte[1].

Entre o segundo e terceiro cânticos João descreve algo no verso 4: “Os vinte e quatro anciãos e os quatro seres viventes prostraram-se e adoraram a Deus, que estava assentado no trono, e exclamaram: ‘Amém, Aleluia!’”. Aqui podemos ver a resposta destas criaturas que estão diante do trono de Deus. Eles que foram criados para adorar exclusivamente a majestade divina, concordam com o juízo de Deus. Amém significa “Assim seja!”.

O terceiro cântico está no verso 5: “Então veio do trono uma voz, conclamando: ‘Louvem o nosso Deus, todos vocês, seus servos, vocês que o temem, tanto pequenos como grandes!’”. Esta voz pode ser de um dos quatro seres viventes, e conclama a todos os servos do Senhor a glorificar o nome de Deus. A frase, “Louvem o nosso Deus”, é a tradução grega de “Aleluia”. O que vemos aqui é uma grande festa pelos feitos do Senhor na história. O termo “servos” no grego é douloi (douloi), que literalmente significa “escravo”. Isto nos mostra a devoção total dos remidos diante de Deus.

E o quarto cântico está nos versos de 6 a 8: “Então ouvi algo semelhante ao som de uma multidão, como o estrondo de muitas águas e fortes trovões, que bradava: ‘Aleluia! Pois reina o Senhor, o nosso Deus, o Todo-poderoso. Regozijemo-nos! Vamos alegra-nos e dar-lhe glória! Pois chegou a hora do casamento do Cordeiro, e a sua noiva já se aprontou. Para vestir-se, foi-lhe dado linho fino, brilhante e puro.’ O linho fino são os atos justos dos santos.”. João passa a proclamar o triunfo final do Cordeiro. A multidão celestial proclama a vinda do Reino de Deus. Neste cântico há vários pontos interessantes:



- “...pois reina o Senhor, o nosso Deus Todo-poderoso.”: Segundo Ladd, nenhuma das nossas traduções consegue captar a idéia do texto grego, pois traduzem esta frase no tempo presente. Ladd diz que no grego o verbo está no passado, o que os gramáticos chamam de aoristo incoativo, ou seja um verbo que põe ênfase no início de uma ação. Ele acha que uma tradução mais clara seria: “O Senhor nosso Deus passou a reinar!”, já que a esta altura o reino de Deus ainda não fora plenamente estabelecido, faltando à vinda de Cristo, o acorrentamento de Satanás e o início do reino messiânico[2]. Aqui Deus Pai é chamado de Senhor. Também é chamado de Todo-poderoso, o que ocorre em todo o livro oito vezes. O Senhor estabelecerá definitivamente o Seu reino sobre a terra.

- “...Pois chegou a hora do casamento do Cordeiro, e a sua noiva já se aprontou.”: O verso 7 destaca a alegria do momento. A vinda de Cristo será um momento de alegria para os servos do Senhor. Será o momento da definitiva união entre Cristo e Sua igreja. A tradução mais correta seria “esposa” (gunh, gr. gynê) e não “noiva”(numfh, gr. nymphê). Uma noiva podia ser chamada de esposa no sentido de já estar comprometida, mesmo que o casamento ainda não tivesse ocorrido (cf. Gn. 29:21; Dt. 22:24). Foi neste sentido que o anjo falou a José que não tivesse receio de casar-se com Maria, “sua esposa” (Mt. 1:20). Paulo aplicou a figura da esposa à igreja (Ef. 5:25-32), exortando os homens a amarem as suas esposas como Cristo amou a igreja. Israel por diversas vezes foi chamado de esposa de Yahweh, ou Yahweh marido de Israel (Is. 54:5,6; Jr. 31:32; Ez. 16:8-14). O livro do profeta Oséias está todo estruturado em um drama familiar, em que Israel é a esposa de Deus, e que O trai com Baal. Mas o profeta proclama que haverá um novo dia: “Eu me casarei com você para sempre; eu me casarei com você com justiça e retidão, com amor e compaixão. Eu me casarei com você com fidelidade, e você reconhecerá o SENHOR.” (Os. 2:19,20). Jesus usou a figura do casamento para representar seu relacionamento com seus discípulos (Mc. 2:19). João Batista chamou Jesus de o noivo (Jo. 3:29). Jesus citou duas parábolas, uma da festa de casamento (Mt. 22:1-14), e outra sobre a vinda do noivo (Mt. 25:1-13) para descrever a vinda escatológica do Reino. O que queremos destacar aqui é que a vinda do Reino de Deus será o momento da união do povo de Deus (a Igreja e o Israel redimido) com o Senhor. Esta celebração das bodas será no céu. A noiva deverá se enfeitar (v. 8). Perceba, porém, que esta veste a noiva não conseguirá sozinha ou por mérito seu: “Para vestir-se, foi-lhe dado linho fino, brilhante e puro.”. O vestido é um presente do próprio Deus. A salvação não é algo que mereçamos e sim algo que ganhamos como presente de graça de Deus. A roupa de casamento será simples: um vestido branco, lavado e alvejado com o sangue do Cordeiro (7:14). Esta visão contrasta com a visão da prostituta.



E o verso 9 diz: “E o anjo me disse: ‘Escreva: Felizes os convidados para o banquete do casamento do Cordeiro!’ E acrescentou: ‘Estas são as palavras verdadeiras de Deus’.”. Eis a razão porque o Apocalipse chegou até nós: Para ser transmitido as futuras gerações os planos e propósitos de Deus na História. O anjo também diz que todos os que foram convidados para o banquete são felizes. Mas quem são os convidados? A igreja, os santos do Antigo Testamento e o Israel redimido. Este grupo é ao mesmo tempo noiva e os convidados. Jesus disse que virão muitos do Oriente e do Ocidente para se assentar junto com os Patriarcas (Mt. 8:11). Na ceia Ele falou que não beberia mais do vinho até o dia em que estivesse com eles no Reino de Deus (Mt. 26:29). Um outro ponto importante é notar que ninguém chegará por méritos próprios na festa. Todos têm de receber um convite de Deus (Mt. 22:3; Lc. 14:17). A iniciativa da Salvação é de Deus e não do homem. E a tudo isto o anjo acrescenta que estas palavras são verdadeiras, mostrando a fidelidade de Deus.

No verso 10 João descreve: “Então cai aos seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: ‘Não faça isso! Sou servo como você e como os seus irmãos que se mantêm fiéis ao testemunho de Jesus. Adore a Deus! O testemunho de Jesus é o espírito de profecia’.”. Por que João se prostrou diante do anjo? É possível que João tenha confundido a voz do anjo com a de Cristo. No primeiro século muitos cristãos tendiam a adorar anjos, o que foi duramente criticado pelos apóstolos (Cl. 2:18; Hb. 2). O anjo repreendeu gentilmente a João, mostrando que era servo como ele e os outros que eram fiéis ao testemunho de Jesus. O anjo mostra a João quem é o único digno de ser adorado: Deus. E ai o anjo termina dizendo: “O testemunho de Jesus é o espírito de profecia”. O que isto realmente quer dizer? Há duas interpretações que são consideradas corretas. A primeira diz que o testemunho do plano de redenção de Deus aos homens só pode alcançar o seu objetivo através do espírito da profecia. As cartas as sete igrejas seriam a voz do Espírito Santo. A segunda interpretação diz que todo verdadeiro testemunho da obra redentora e da pessoa de Jesus tem de ter a sua fonte no espírito da profecia. Tudo isto está correto, porém vale salientar que este “espírito de profecia” nada tem a ver com o que comumente hoje é aceito em algumas igrejas. Profecia aqui como em todo o Novo Testamento – exceto alguns textos – significa proclamação da Palavra de Deus e não uma previsão do futuro.

A segunda parte deste texto está nos versos 11 a 21, e descreve a Segunda vinda de Cristo. João descreve Jesus Cristo dos versos 11 a 16:



- “Vi os céus abertos e diante de mim um cavalo branco, cujo cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro. Ele julga e guerreia com justiça.” (v.11): O céu aberto mostra o caminho pronto para a vinda do Messias em triunfo. Ele está em um cavalo branco. O cavalo apareceu no primeiro selo (6:2), sendo que ali era a igreja com o evangelho de Cristo que saia para vencer. Nós entendemos que no primeiro selo mostra a igreja no mundo antes do arrebatamento. Aqui no entanto o cavaleiro é Jesus Cristo, o Verbo de Deus (v.13). Branco é símbolo da vitória, e em todo o livro de Apocalipse o branco está relacionado com as coisas de Deus e à vitória divina. Cristo é chamado por dois adjetivos: Fiel e verdadeiro. As duas palavras são quase que sinônimas no hebraico, pois a idéia hebraica de verdade significa “confiabilidade”. Jeremias disse: “Mas o SENHOR é o Deus verdadeiro;...” (Jr. 10:10). Quando o profeta fala de Deus desta forma não fala dEle como sendo Aquele que revela verdades eternas, mas o Deus em que se pode confiar, quanto a manter a sua aliança. Neste caso Jesus Cristo está identificado com o Deus Pai. E este versículo também mostra que Ele tem um caráter firme. Isaías disse que o Messias julgaria os pobres com justiça e decidiria com eqüidade pelos humildes da terra (Is. 11:4). A vinda de Cristo não será uma demonstração de vingança pessoal, nem uma manifestação arbitrária do poder de Deus. Será sim um ato de justiça, em que Deus exterminará o mal, mostrando a Sua fidelidade.

- “Seus olhos são como chamas de fogo, e em sua cabeça há muitas coroas e um nome que só ele conhece, e ninguém mais.” (v.12): Os olhos de Cristo pode ser visto também na descrição no início do livro (1:14). Representa o olhar de Cristo que tudo vê, nada está oculto para Ele. Na cabeça dEle tem muitas coroas justamente porque Ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores (17:14). A vinda de Cristo será uma manifestação visível da Soberania divina. E também tem um nome que só Ele conhece. O nome representa o ser essencial, o caráter de uma pessoa. Isto nos mostra que nenhuma mente humana poderá compreender a profundidade de Seu ser.

- “Está vestido com um manto tingindo de sangue, e o seu nome é Palavra de Deus.” (v.13): Este versículo está em conexão com Ap.14:20 e Is. 63. Nos dois textos o conquistador que pisa no lagar da ira de Deus tem as suas vestes manchadas com o sangue dos inimigos. O sangue aqui não é de Cristo, mas dos inimigos que se lançarão contra Ele. Cristo aqui é visto como guerreiro. Um outro adjetivo é dado a Ele: Palavra de Deus. Isto liga o Apocalipse com os escritos joaninos (Jo. 1:1; I Jo. 1:1). Cristo é em pessoas a Palavra de Deus por excelência, a personificação de todo o plano de redenção de Deus.

- “Os exércitos dos céus o seguiam, vestidos de linho fino, branco e puro, e montados em cavalos brancos.” (v.14): Estes exércitos dos céus podem ser os anjos, juntamente com os mártires e todos os santos do Senhor que morreram na história. Vários textos bíblicos nos mostram os anjos no dia apocalíptico (Zc. 14:5; Mc. 8:38; Lc. 9:26; I Ts. 3:13; II Ts. 1:7). O fato de estarem montados em cavalos brancos revela que este exército participa do poder e da dignidade do Messias.

- “De sua boca sai uma espada afiada, com a qual ferirá as nações. Ele as governará com cetro de ferro. Ele pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-poderoso.” (v.15): A única arma que Cristo usará na Sua vinda será a Palavra. Este texto está ligado a Is. 11:4: “...ele ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará o perverso.”. Aqui a vitória é pelo poder da Palavra. Isto nos leva a criação. Deus criou todas as coisas por intermédio da Sua palavra, ou seja, Cristo (Jo. 1:3; Hb. 1:2). Ele falou e tudo foi feito. O julgamento do mundo será executado por intermédio da palavra de Cristo. O lagar da ira de Deus será a batalha do Armagedom.

- “Em seu manto e em sua coxa está escrito este nome: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES.” (v.16): Aqui nós vemos o quarto nome dado a Cristo. Cristo tem um nome que só Ele conhece, as igrejas o conhecem como Fiel e Verdadeiro, e o Verbo de Deus, e o mundo o conhecerá como Rei dos reis e Senhor dos Senhores. Sobre o nome estar escrito na coxa há várias conjecturas. Alguns acham que seria a localização e a maneira da inscrição no cabo da espada. Outros acham que era um antigo costume de gravar o nome do artista sobre a coxa de uma estátua. O que realmente importa é o significado da inscrição, que será reconhecida por todos quando Ele voltar.



Depois disto João descreve nos versos 17e 18: “Vi um anjo que estava em pé no sol e que clamava em alta voz a todas as aves que voavam pelo meio do céu: ‘Venham, reúnam-se para o grande banquete de Deus, para comerem as carnes dos reis, generais e poderosos, carne de cavalos e seus cavaleiros, carne de todos – livres e escravos, pequenos e grandes.”. A cena agora é totalmente diferente. Um anjo convoca as aves do céu para uma ceia, mas não é a ceia das bodas do Cordeiro onde os santos foram convocados. Esta ceia será para condenação dos ímpios no juízo final. Esta é uma ceia de Deus pois será o próprio Deus quem providenciará. Este texto está ligado com Ezequiel 39. O verso 18 fala da carne de todos, ou seja de todos aqueles que se aliarão ao Anticristo e que negarão a soberania de Cristo.

Dos versos 18 a 21 nos mostra a batalha entre Cristo e o Anticristo. No verso 19 João descreve o Anticristo com seus aliados se preparando contra Cristo. Os reis da terra apoiarão a besta (16:14; 17:2,18; 18:3). No verso 20 não há uma descrição da batalha. João afirma que “a besta foi presa, e com ela o falso profeta que havia realizado os sinais miraculosos em nome dela, com os quais ele havia enganado os que receberam a marca da besta e adoraram a imagem dela. Os dois foram lançados vivos no lago que arde com enxofre.”. O lago de fogo é a Gehenna, ou seja inferno. Neste versículo somente o Anticristo e o falso profeta são jogados no inferno. Satanás também será levado para lá (20:3). Aqui a idéia é mostrar que o julgamento será feito e ninguém vai escapar. No verso 21 João conclui dizendo que os demais – os que apoiarão a besta – serão mortos pela Palavra de Cristo.

Este capítulo é uma declaração de esperança. Esperança? Sim, porque olhando o mundo em que vivemos temos uma impressão de que o mal está a cada dia conquistando mais espaço. Isto porém está nos planos de Deus pois Ele é o Senhor da História. O homem nunca mudará o rumo das coisas pois está doente. O mundo não será melhor pois está em estado de putrefação. Os dias de Satanás estão contados. O Senhor Jesus está às portas. O reino de Deus está perto de ser finalmente implantado. A igreja está hoje no mundo para testemunhar deste reino e levar a mensagem de Cristo às pessoas. Todos estão sendo convidados para a festa do Cordeiro. Felizes são os que aceitam esta mensagem. Louvado seja o Senhor por esta mensagem de esperança. Maranata Rei dos Reis e Senhor dos senhores.
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