Parte 27 - A mulher montada na Besta
Ap. 17:1-18



Neste capítulo de Apocalipse João recebe a visão que antecede a queda de Babilônia. A cidade é chamada neste texto de “grande prostituta”, e referia-se a cidade de Roma no primeiro século. Os cristãos primitivos interpretavam assim porque a perseguição vinha de uma ordem direta do imperador romano, que representava o anticristo. Escatologicamente “Babilônia” representará a sociedade corrompida pelo Anticristo no final dos tempos. Poderá representar uma cidade literal? É possível, porém não pode ser descartada a idéia acima.

Nos versos 1 e 2 João nos diz: “Um dos sete anjos que tinham as sete taças aproximou-se e me disse: Venha, eu lhe mostrarei o julgamento da grande prostituta que está sentada sobre muitas águas, com quem os reis da terra se prostituíram; os habitantes da terra se embriagaram com o vinho da sua prostituição.”. Para João e os primeiros cristãos esta “prostituta” representava a cidade de Roma e todo o seu paganismo. O império romano perseguia e matava os cristãos, forçando-os a adorar o imperador. João diz que um dos sete anjos veio até ele e lhe falou do julgamento sobre esta cidade do mal. Este julgamento fala claramente da destruição da cidade devido a sua idolatria e perseguição aos servos do Senhor.

Entendemos entretanto que, profeticamente, a menção desta cidade refere-se a cidade onde o Anticristo governará o mundo. Ela está sentada sobre muitas águas, ou seja, estas águas não são literais, mas como o próprio verso 15 deste mesmo capítulo explica, “...são povos, multidões, nações e línguas.”. A cidade de Babilônia é tida como protótipo aqui. O profeta Jeremias a descreveu: “Você que vive junto a muitas águas e está rico de tesouros, chegou o seu fim, a hora de você ser eliminado.” (Jr. 51:13). A Babilônia histórica tinha uma rede de canais que a cercava, enquanto Roma era atravessada pelo rio Tibre. Mas como os cristãos primitivos interpretavam sendo a cidade de Roma, sendo que esta não tem rios literalmente? A alusão é apenas simbólica, já que as mesmas atrocidades e pecados cometidos por Babilônia, foram os mesmos de Roma. No contexto profético esta “Babilônia” dos últimos dias influenciará os reis e todos os habitantes de terra. Por esta razão os homens endurecerão o coração quando os juízos divinos forem derramados sobre a terra.

Dos versos 3 a 6 o anjo leva João a um deserto, e ali ele tem a visão de uma “mulher montada numa besta vermelha, que estava coberta de nomes blasfemos e que tinha sete cabeças e dez chifres.” (v.3). O deserto fala de um lugar solitário, desolado. Este deserto é diferente daquele que a mulher celestial fugiu do dragão (12:6,14). A mulher representa Babilônia, a besta vermelha é a besta que saiu do mar, ou seja o Anticristo, que está coberto de blasfêmias. Que blasfêmias seriam estas? Blasfêmias contra Deus, usurpando a glória que é somente dele. E esta besta tinha sete cabeças e dez chifres, que podem ser interpretados à luz do próprio texto (v.9-12).

No verso 4 João descreve a mulher que estava “vestida de azul e vermelho, e adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas”. A observação de João é mostrar que esta “prostituta” não é uma decaída comum. Estas vestes mostram-se caras e principescas. Sua posição é imperial, e além disto, João destaca a sua riqueza também. Ele também observa que a mulher tinha em sua mão um cálice de ouro, “cheio de coisas repugnantes e da impureza da sua prostituição.”. Aqui há uma alusão direta a Jeremias: “A Babilônia era um cálice de ouro nas mãos do SENHOR; ela embriagou a terra toda. As nações beberam o seu vinho; por isso enlouqueceram.” (Jr. 51:7). O que significa isto? O cálice será bonito e as nações esperarão um vinho delicioso, mas por fim receberão uma bebida repulsiva. O vocábulo bdelugmatwn (gr. bdelygmaton), que é traduzida em nossas Bíblias como “repugnantes”, no original significa algo detestável, digno de repúdio e desdém. No A.T. grego (LXX)[1] a idéia é de impureza cerimonial, algo ligado a idolatria. Ladd diz que, “A idéia central é que, prometendo riqueza e luxo, a mulher desvia as pessoas da adoração a Deus.”[2].

No verso 5 João diz que havia uma inscrição na testa da mulher: “MISTÉRIO: BABILÔNIA, A GRANDE; A MÃE DAS PROSTITUTAS E DAS PRÁTICAS REPUGNANTES DA TERRA.”. Esta descrição na testa é uma marca identificadora, assim como os santos foram selados com o nome divino (7:3; 9:4; 14:1) e os seguidores da besta foram selados com o número do seu nome (13:17). O mistério é um segredo desvendado. O que antes estava oculto, agora passa a ser revelado. Porém este mistério não pode ser desvendado por força humana. Somente a revelação divina pode fazê-lo. O nome é realmente estranho, porém cheio de significado:



BABILÔNIA: No caso Roma do primeiro século. Nos últimos dias refere-se a cidade que impulsionará a cultura, política e economia do Anticristo.

A GRANDE: Por ter todo o mundo aos seus pés, levando as nações a adorarem o Anticristo.

A MÃE DAS PROSTITUTAS: A cidade mesma é uma prostituta. A influência desta cidade faz com que muitas outras sigam os seus passos, afastando-se cada vez mais de Deus.

E DAS PRÁTICAS REPUGNANTES DA TERRA: A idolatria e as abominações fazem desta cidade um lugar detestável, onde a impureza é a marca registrada.



E no verso 6 João fica estarrecido ao ver que a mulher “estava embriagada com o sangue dos santos, o sangue das testemunhas de Jesus.”. João está contemplando aqui a Babilônia escatológica. Estar embriagada com sangue era uma expressão antiga (cf. Is. 34:5; 49:26). Isto nos mostra que nos últimos dias, os cristãos que ficarem na grande tribulação, sofrerão grande perseguição por serem fiéis a Jesus.

Dos versos 7 e 8 o anjo passa a esclarecer João que estava admirado com tudo que tinha visto. O anjo disse: “Por que você está admirado? Eu lhe explicarei o mistério dessa mulher e da besta sobre a qual ela está montada, que tem sete cabeças e dez chifres.” (v.7). É interessante notar que o anjo fala mais da besta do que da mulher. Aqui nos mostra a ligação inseparável entre a mulher e a besta. O mistério inclui tanto a mulher quanto a besta. O anjo continua no verso 8, mas vamos tentar este versículo separadamente:



“A besta que você viu, era e já não é. Ela está para subir do Abismo e caminha para a perdição.”: João está se referindo a ferida mortal (13:3), e aqui ele deixa claro que a besta deve ser identificada com suas cabeças. Matar uma cabeça significa matar a besta. A besta tem de passar por três estágios: era, isto é, teve uma experiência no passado; já não é, ou seja, haverá um tempo em que ela não existirá; está para subir do abismo, significa que terá uma manifestação futura que será uma materialização do mal. O abismo representa apocalipticamente o reino demoníaco e satânico do mal. Isto significa que, quando o Anticristo surgir ele terá um grupo ligado a ele (sete cabeças). Ao ser morto de forma trágica o mundo ficará estarrecido pelo grande líder da humanidade ter desaparecido tragicamente após ter unido o mundo e lançado este em um momento de paz nunca vista. A cura desta cabeça fará com que o mal se personifique a ponto do Anticristo se levantar literalmente do inferno. Só que esta manifestação da besta terá curta duração, pois ele caminha para a perdição.

“Os habitantes da terra, cujos nomes não foram escritos no livro da vida desde a criação do mundo, ficarão admirados quando virem a besta, porque ela era, agora não é, entretanto virá.”. João diz que os habitantes da terra ficarão admirados. Vale salientar que estes que ficarão admirados não são salvos, pois seus nomes não estão no livro da vida. A razão da admiração será o reaparecimento da besta, que depois da sua morte ressurge em cena de forma inexplicável.



Dos versos 9 a 14 o anjo continua a esclarecer a João sobre a visão. No verso 9 o anjo afirma que neste assunto que segue é necessário uma “mente sábia”. A explicação das cabeças e dos chifres aparece nestes versículos:



SETE CABEÇAS: O anjo esclarece que elas representam sete colinas sobre as quais a mulher está sentada (v.9). Aqui a alusão é clara a cidade de Roma. Os primeiros cristãos identificavam Roma como sendo a Babilônia de seus dias. Mas o simbolismo não para por ai. As sete cabeças representam também sete reis (v.10). O anjo diz a João: “Cinco já caíram, um ainda existe, e outro ainda não surgiu; mas, quando surgir, deverá permanecer durante pouco tempo. A besta que era, e agora não é, é o oitavo rei. É um dos sete, e caminha para a perdição.” (v. 10,11). Aqui nestes versos há muita controvérsia pois não há consenso entre os estudiosos. Há um ponto em comum: João estava falando de Roma, e é certo que o que está em vista aqui são imperadores romanos. O melhor é pensarmos que o número “sete” refere-se a um número ideal e não literal. Os reis representariam reinos que surgiram e dominaram o mundo. O que ainda não surgiu durará pouco tempo, e logo após surgirá o último reino, o do Anticristo e que caminhará para a perdição (v.11). O que é mais difícil de interpretar é que o oitavo rei na realidade é um dos sete. Mas o que é isto? Seria um erro de João? Na realidade não. É por isto que o sétimo rei deverá durar pouco. João quer dizer que este oitavo é como os outros sete reis no sentido de sucedê-los na dominação do mundo, só que com uma diferença: ele surge do abismo numa forma corpórea do mal satânico, ou seja, a besta.

DEZ CHIFRES: O anjo diz a João que estes chifres são dez reis “que ainda não receberam reino, mas que por uma hora receberão autoridade como reis, junto com a besta.” (v.12). Não devemos especular aqui sobre quem serão estes cooperadores da besta. O que estes versículos nos falam está no futuro e é impossível determinar com segurança o real sentido. O certo é que o Anticristo apoiará o seu governo mundial em cima de um grupo de líderes e nações. Quando ele dominar o mundo dez destes cooperadores receberão autoridade, mesmo que seja por pouco tempo. Esta coalizão terá um objetivo: dar poder e autoridade à besta (v.13). Isto faz muito sentido. Hoje temos a ONU (Organização das Nações Unidas), temos o G 8, que é formado pelos sete países mais ricos do mundo mais a Rússia, e a pouco tempo vimos a unificação da Europa ganhando força com o Euro. O Anticristo surgirá trazendo para si grandes nações, e no final este poder lhe será dado. Mas qual a razão de receber o poder das nações? Guerrear contra o Cordeiro (v.14). Só que tem um detalhe, o Cordeiro os vencerá porque é “Senhor dos senhores e o Rei dos reis”.

O título “Senhor dos senhores” está no manto e na coxa do Cristo vitorioso (19:16). O senhorio de Cristo lhe garante vitória. Este título refere-se a Cristo como o Soberano, Aquele que é o Cabeça, a autoridade plena e inquestionável. Só que Cristo não vence sozinho. Do seu cortejo fazem parte “os seus chamados, escolhidos e fiéis”. Eu creio que este versículo refira-se plenamente a segunda vinda. Cristo vindo dos céus com os santos, os mártires e os anjos, reunindo de todos os lugares da terra os seus escolhidos que sofreram a perseguição, mas que foram fiéis a Ele em todo tempo.

E por fim o anjo explica a João a parte final da visão, que está nos versos 15 a 18. No verso 15 ele dá a explicação das águas sobre as quais a mulher estava sentada. Representam “povos, multidões, nações e línguas”. Isto nos mostra como a influência da besta e de sua cidade – e porque não dizer cultura maligna – dominarão o mundo. No verso 16 o anjo diz algo que não é explicado. A besta e os dez chifres destruirão a mulher, ou seja, a cidade. A cidade antes orgulhosa de sua opulência, será destruída e arruinada. Talvez seja este o método de Deus para destruir e julgar a cidade. No verso 17 podemos encontrar a razão deste método de julgamento divino contra a cidade. A soberania divina motivará os dez reis a uma ação que cumprirá o plano divino. O fato de a besta querer destruir a mulher não surpreende os reis que lhe dão total apoio. E no verso 18 o anjo deixa claro que “a mulher que você viu é a grande cidade que reina sobre os reis da terra.”. No primeiro século era Roma; no final dos tempos a Babilônia escatológica.

Por que devemos estudar um capítulo tão difícil? Eu creio que está é uma das muitas questões que cristãos em todo o mundo poderia fazer e fazem. Eu responderia da seguinte forma: É necessário para nos mostrar que por maiores que sejam os planos de Satanás de querer interferir na história e destruir a obra do Senhor, podemos ter a certeza que o Senhor dos Senhores venceu e vencerá sempre. Talvez estejamos na eminência de vermos surgir a Babilônia escatológica com sua cultura pervertida e maligna. Creio que somos a geração dos últimos dias e por isso é necessário entendermos os planos de Deus. O que consola nosso coração é a certeza inabalável de que Cristo vencerá e nós estaremos ao Seu lado comemorando a vitória. Maranata!
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