Parte 23 - Os três anjos
Ap. 14:6-13



Vemos que João neste texto destaca aqui três anjos. É importante salientar que estas visões fazem parte de um interlúdio que está antes das sete taças da ira de Deus. Entendemos que estas visões do capítulo 14 nos trazem verdades concernentes a momentos antes e depois do arrebatamento da igreja. A primeira visão nos fala da recompensa daqueles que permanecerão fiéis a Cristo e que não adorarão a besta (14:1-5). Já nesta segunda visão (14:6-13) os três anjos representam mensagens diversas como veremos a seguir.

Nos versos 6 e 7 temos o primeiro anjo: “Então vi outro anjo, que voava pelo céu e tinha na mão o evangelho eterno para proclamar aos que habitam na terra, a toda nação, tribo, língua e povo. Ele disse em alta voz: Temam a Deus e glorifiquem-no, pois chegou a hora do seu juízo. Adorem aquele que fez os céus, a terra, o mar e as fontes das águas.”. O primeiro anjo nos fala de arrependimento. Particularmente entendo que este anjo represente a igreja como mensageira do evangelho eterno antes do arrebatamento e do surgimento do Anticristo. O evangelho eterno no verso 6 refere-se ao evangelho imutável, ou seja o verdadeiro evangelho de Cristo e não um falso evangelho que poderá surgir com a pessoa do Anticristo. João ouve o anjo advertindo a todos que se arrependam enquanto há tempo, antes que venha o juízo de Deus. Hoje vivemos o momento em que o evangelho de Cristo está sendo pregado em todo o mundo, chamando os homens ao arrependimento. O tempo está acabando e os homens devem voltar para Deus.

O segundo anjo está descrito no verso 8: “Um segundo anjo o seguiu, dizendo: Caiu! Caiu a grande Babilônia que fez todas as nações beberem do vinho da fúria da sua prostituição!”. Este anjo fala sobre julgamento. Se o primeiro anjo representa a igreja pregando o evangelho eterno aos homens antes do arrebatamento, o segundo anjo nos mostra o juízo de Deus contra a sociedade pós-arrebatamento.

Babilônia era o grande inimigo de Israel nos tempos do A.T. (Is. 21:9; Jr. 50:2; 51:8). A Babilônia era símbolo da idolatria, da magia e da rebeldia contra Deus. Para os judeus e cristãos do 1º século representava Roma (I Pe. 5:13), a capital do império romano. Para os judeus era símbolo da opressão romana na Judéia. Para os cristãos era símbolo da perseguição, já que o cristianismo era uma religião não permitida. Mas aqui também se refere, futuramente, a capital da civilização apóstata dos últimos dias, o símbolo da sociedade humana organizada política, econômica e religiosamente em oposição e desafio a Deus.

“...que fez todas as nações beberem do vinho da fúria da sua prostituição!”. A prostituição se refere aqui a idolatria, no caso a imagem da besta. No uso judaico toda idolatria representava uma prostituição. Quando Israel deixava Deus de lado para seguir outros deuses era o mesmo que ter um adultério espiritual (Jz. 2:17; 8:27; I Cr. 5:25; Sl. 106:39; Ez. 6:9; 20:30; 23; Os. 4:12; 5:4; 9:1). A prostituição estava ligada à bebida alcoólica. Isto era muito comum na religiosidade pagã grega e romana. A bebida amortece a sensibilidade espiritual dos homens, além de afastá-los de Deus. Há um paralelo deste texto com Jr. 51:7. Por semelhante modo Roma é vista como uma prostituta que induz as nações à bebedeira em Ap. 17:2. A lição que João nos mostra é que a sociedade dirigida pelo Anticristo alienará os homens assim como a bebida e a idolatria faz com as pessoas que não conhecem a Deus.

Nos versos de 9 a 11 João nos fala do terceiro anjo, em que o tema deste é semelhante ao segundo: julgamento. O segundo anjo nos fala do juízo derramado sobre a sociedade iníqua; o terceiro anjo nos fala do julgamento individual, daqueles que preferiram seguir a besta. Há dois termos gregos que devemos destacar aqui: qumoV (thymós) e orgh (orgê). Estes dois termos representam o julgamento de Deus. Barclay nos diz que qumoV não é a ira acumulada a muito tempo e sim é como um fogo que se acende e apaga com igual rapidez[1]. Já orgh representa uma ira de longa duração, que acalenta a lembrança do mal[2]. No grego estas palavras aparecem juntas para mostrar a intensidade e a realidade da ira de Deus.

É importante salientar que a ira de Deus não é uma emoção humana, e sim uma reação preestabelecida da sua santidade a pecaminosidade e rebelião humana. A ira de Deus está em seus planos, pois é necessária e correlata ao Seu amor e à Sua misericórdia (Rm. 1:18).

O seu vinho é o furor de Deus derramado sem mistura. Os antigos sempre misturavam água com o vinho e outras bebidas fortes. A figura simbólica nos fala de alguém que é forçado a beber tal bebida, goste ou não. Em outras palavras isto significa que o juízo de Deus sobre os adoradores da besta será total e sem brandura. A taça da ira de Deus é o lago de fogo e enxofre (Ap. 20:10,15), ou seja a Geenna ou inferno (v.11), um lugar de castigo eterno.

E encerrando a visão João fala de uma promessa aos fiéis, aqueles que são perseverantes, obedientes e fiéis a Jesus: “Aqui está a perseverança dos santos que obedecem aos mandamentos de Deus e permanecem fiéis a Jesus. Então ouvi uma voz dos céus dizendo: Escreva: Felizes os mortos que morrem no Senhor de agora em diante. Diz o Espírito: Sim, eles descansarão das suas fadigas, pois as suas obras os seguirão.” (v. 12,13). Podemos destacar duas coisas desta promessa:



· É uma felicidade morrer por e em Jesus. A palavra grega traz a idéia de abençoado (makarioV ; makários). No N.T. a idéia é de felicidade espiritual. Quando uma pessoa morre por Jesus se mostra fiel a Ele (Ap. 2:10). Quando uma pessoa morre em Jesus morre com a esperança da vida eterna (Sl. 116:15; Fp. 1:21). Esta mensagem com certeza consolou muito o coração dos primeiros leitores desta carta quando estavam sendo perseguidos e mortos.

· Há um descanso para os servos de Deus. Em contraste com os adoradores da besta que irão para o castigo eterno, os fiéis de Jesus descansarão em Sua presença.



Que possamos entender estas promessas e nos agarrarmos a elas, permanecendo fiéis a Cristo até o dia final.
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