Parte 22 - O Cordeiro e os 144 mil selados
Ap. 14:1-5



Após as visões terríveis que João teve sobre o Satanás, o Anticristo e o Falso profeta, ele passa a ter visões mais consoladoras. Este capítulo antecipa as sete pragas derramadas sobre a terra no capítulo 15. No capítulo 14 João teve três visões. A primeira é Cristo com os cento e quarenta e quatro mil selados.

João inicia dizendo: “Então olhei, e diante de mim estava o Cordeiro, em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil que traziam escritos na testa o nome dele e o nome de seu Pai.”. João começa a contemplar os redimidos na presença de Cristo. Estes são os mesmos que aparecem no capítulo 7 e representam o povo de Israel, bem como a igreja também. Neste caso tanto a igreja quanto os judeus redimidos representam o Israel espiritual.

No capítulo anterior João tinha visto que muitos tinham se prostrado diante da besta, enquanto aqueles que não faziam isto acabavam por ser mortos. Estes que estão na presença de Cristo são aqueles que não adoraram a besta e que foram mortos por que não aceitaram a blasfêmia da besta. Eles tinham a sua salvação assegurada pelo selo de Deus. Esta mensagem fortalecia e muito a igreja primitiva diante das perseguições que sofria. Estes estavam de pé diante de Cristo no monte Sião. Esta com certeza faz parte de uma visão celestial que João teve. Segundo o Escritor da epístola aos Hebreus, Sião é a pátria celestial: “Mas vocês chegaram ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade do Deus vivo. Chegaram aos milhares de milhares de anjos em alegre reunião,...” (Hb. 12:22). Então este Sião representa o céu e não a Sião literal. E estes redimidos, diferentes dos outros que tinham o sinal da besta, estavam marcados com o nome de Jesus e do Pai. Este é o selo dos mártires que garantirá a salvação eterna, mesmo que sejam mortos aqui. Se a maracá da besta é um código que revela o nome do Anticristo, o selo de Deus é o nome do Pai e do Filho. Estes mártires estarão totalmente dedicados a Cristo. O nome do Pai e do Filho indicará que os mártires pertencem ao Senhor.

No verso 2 João prossegue: “Ouvi um som dos céus como o de muitas águas e de um forte trovão. Era como o de harpistas tocando seus instrumentos.”. Aqui esta voz não é de Cristo, e sim de um grupo de cantores e músicos que estão diante do trono. Simboliza aqui que o céu é um lugar agradável e feliz, onde existe uma alegria maravilhosa, em contraste com o mundo inquieto em que vivemos.

No verso 3 João diz: “Eles cantavam um cântico novo diante do trono, dos quatro seres viventes e dos anciãos. Ninguém podia aprender o cântico, a não ser os cento e quarenta e quatro mil que haviam sido comprados da terra.”. A visão é muito interessante. Os músicos celestiais estão cantando este novo cântico diante do trono e somente os cento e quarenta e quatro mil podem e sabem cantar. Por que? Porque este cântico fala da redenção, da obra realizada na cruz por Cristo, e somente os redimidos podem aprender, porque foram comprados por alto preço. Os anjos também entoam este cântico, porém ele foi composto especialmente para os redimidos.

É importante destacarmos aqui que o número 144.000 é puramente simbólico. Na parte XIII do nosso estudo fizemos uma análise sobre o número e sua implicação.

Nos versos 4 e 5 João conclui a primeira das três visões deste capítulo: “Estes são os que não se contaminaram com mulheres, pois se conservaram castos e seguem o Cordeiro por onde quer que ele vá. Foram comprados dentre os homens e ofertados como primícias a Deus e ao Cordeiro. Mentira nenhuma foi encontrada em suas bocas; são imaculados.”. Há muitos intérpretes que dizem que os cento e quarenta e quatro mil representariam uma classe especial de cristãos, que levaram as suas vidas com uma pureza especial, abstendo-se do casamento e tornando-se celibatários. Mas esta interpretação é totalmente equivocada e fora do conceito bíblico.

O vocábulo grego parqenoV (parthenos), que é traduzida por casto aqui, também é a mesma palavra para virgem. Numa primeira leitura o termo aparentemente dá a idéia de castidade. Porém isto seria uma violação de toda a teologia bíblica. Não há na Bíblia nenhuma condenação às relações sexuais, que são encaradas como um elemento importante do relacionamento humano. O Novo Testamento recomenda o casamento (I Co. 7:4-8), e Paulo entendia que o celibato não era para todos. Quando fala das pessoas que querem servir a Cristo da melhor forma, Paulo não vê o problema do sexo e sim de que um relacionamento familiar traz consigo outras responsabilidades, e que estas impediriam e muito o obreiro desenvolver seu ministério. Porém Paulo não rejeita um ministro casado, pelo contrário, este deve cuidar bem da sua casa (esposa e filhos) para cuidar bem da obra de Deus (I Tm. 3:1-7). Escrevendo aos coríntios Paulo disse: “O zelo que tenho por vocês é um zelo que vem de Deus. Eu os prometi a um marido, Cristo, querendo apresentá-los a ele como uma virgem pura.” (II Co. 11:2). Entendemos portanto que a idéia de parqenoV é virgem no sentido de pureza espiritual.

João em vários textos no Apocalipse fala da idolatria da besta como porneia (porneia), ou seja, prostituição (14:8; 17:2,4; 18:3,9; 19:2). Esta idéia tem uma grande base bíblica. No A.T. a apostasia de Israel seguindo deuses pagãos era encarada como prostituição e adultério. Entendemos então que os 144.000 são virgens e puros no sentido de terem se recusado a se manchar com a idolatria da besta, mantendo-se puros diante de Deus.

João ainda destaca que eles são seguidores de Cristo, ou seja, são verdadeiros discípulos do Cordeiro. Eles são tão leais a Cristo que são capazes de segui-lo até a morte. Da mesma forma que a submissão perfeita levou Cristo a morrer, assim também o verdadeiro discípulo de Cristo é aquele que está disposta também a compartilhar a cruz (Mt. 10:38; Mc. 8:34). Eles seguem a Cristo porque já não pertencem mais a si mesmos, mas sim porque foram redimidos pelo sangue do Cordeiro (Ap. 5:9). É importante entendermos isto bem claramente. Não há cristianismo sem este discipulado voluntário e pronto a tomar a cruz.

Estes que se dedicam ao Senhor e que são capazes até de morrer são consagrados a Deus e a Cristo como primícias. “Primícias” aqui não deve ser entendida como um grupo escolhido e especial. Todos os homens são especiais para Deus, e Ele deseja que todos se salvem. Porém apenas os redimidos vão experimentar a glória de Deus. Estes serão como primícias, em que o nome do Pai e do Filho serão glorificados.

E por fim João fala de que estes redimidos tinham um caráter moral muito elevado. Eles eram verdadeiros, ou seja, viviam verdadeiramente a vida com Deus. Diferente dos religiosos que vivem com uma capa de aparência e falsa piedade, ele amavam ao Senhor não negando a Cristo em nenhum momento. Na grande tribulação estes servos do Senhor serão conhecidos por sua vida verdadeira. No A.T. os redimidos eram aqueles que não falavam a mentira (Sf. 3:13; Is. 53:9).

E eles também eram puros. João diz que eles eram imaculados. No grego aparece o termo amwmoi (amômoi) que é a forma negativa de mômos, isto é “mácula, culpa, censura”. O termo mácula no A.T. era usado para sacrifícios limpos em condições de serem oferecidos a Deus. Desta forma os redimidos pertencem a Deus, numa dedicação sem falhas. Por isso a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor (Hb. 12:14).

Infelizmente hoje em dia poucos cristãos dão valor a santificação, o que é um perigo, pois talvez só aprendam se passarem por uma grande tribulação. A primeira visão deste capítulo nos anima a viver uma vida junto de Deus esperando a Sua vinda.
LEITURA BÍBLICA
Pegue aqui os arquivos do Programa de Leitura Bíblica


ESTUDOS BÍBLICOS
Estudos sobre a Bíblia, como deve ser a vida do cristão, e louvor.