Parte 19 - A mulher e o dragão
Ap. 12:1-18



O texto que estudaremos agora é muito interessante, e porque não dizer, complicado. Este texto fala de um conflito entre uma mulher e um dragão. Há várias interpretações aqui, mas uma coisa é certa. O texto nos fala claramente do conflito que ocorre no mundo espiritual. Nos primeiros versículos João parece observar as coisas que ocorrem no céu (v.1-12) e, de repente, se acha na terra (v.13-17). O nascimento e o arrebatamento do Messias é retratado (v.2,5), sem mencionar seu ministério na terra. Vejamos o que o texto tem a nos ensinar.

Nos versos 1 e 2 João descreve assim: “Apareceu no céu um sinal extraordinário: uma mulher vestida do sol, com a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça. Ela estava grávida e gritava de dor, pois estava para dar à luz.”. Quem seria esta mulher? O que este sinal extraordinário queria mostrar? A palavra grega para sinal aqui é shmeion (semeion). Este vocábulo significa sinal ou marca distintiva. Nos evangelhos e em Atos é usada para indicar um milagre didático, uma maravilha, que tem como função convencer os homens sobre a intervenção divina, trazendo uma instrução espiritual. Aqui em Apocalipse significa uma maravilha celestial, e visa descrever o conflito entre o bem e o mal. E a mulher? Há várias interpretações sobre quem seria esta mulher:

· Alguns acham que ela seria Maria, a mãe do Senhor. Os que defendem esta posição vêem neste texto a afirmação dela como rainha dos céus;

· Outros interpretam como sendo uma adaptação de João a mitologias gregas e egípcias. Segundo a mitologia grega, a deusa Leto, que trazia consigo um filho pequeno de Zeus, foi perseguida por um dragão chamado Fiton. Esta perseguição à criança foi por causa de uma predição que dizia que esta mataria o dragão. Zeus deu uma ordem que levassem Leto para Poseidon que, dando refúgio em uma ilha, protegeu-a do perigo. Ali Apolo nasceu. O mito egípcio de Ísis também é bem parecido. Segundo a mitologia um crocodilo vermelho do rio Nilo, Sete-Tifom, matou Osíris e começou a perseguir Ísis e seu filho Horus. Ísis conseguiu escapar e Horus posteriormente vingou a morte de seu pai. Na mitologia egípcia Ísis é vista como a mulher celestial. Algumas pinturas e descrições antigas descrevem Ísis como uma mulher que tinha por cima de sua cabeça um círculo brilhante semelhante à lua, estrelas cobrindo a superfície das vestes com a lua entre eles e que jorravam luz. Em algumas descrições ela é vista com estrelas nos cabelos e uma coroa composta de doze estrelas do zodíaco.

· Alguns outros interpretam como sendo Israel (cf. Is. 26:17; 66:7; Mq. 4:10), em que Sião sofrendo dores de parto, dá luz ao novo Israel redimido. Outros porém vêem a igreja na terra e sua descendência (v.17).



Nós cremos que a mulher representa o povo de Deus formado por judeus e gentios. Seria o Sião ideal, a igreja ideal (cf. Is. 54:1; 66:7-9; Gl. 4:26). Esta mulher é a mãe celestial do povo de Deus, a Jerusalém celestial. Dela temos o Israel verdadeiro do A.T. e o povo do Messias no N.T. Os descendentes do verso 17 seriam os fiéis que viverem em todas as épocas e que representam o povo de Deus no correr da história. A estes, Satanás está sempre perseguindo com o intuito de destruir.

E a descrição desta mulher celestial? Como interpretar? Com certeza não é Maria porque não há em toda a Bíblia nenhuma menção de adoração e reverência a ela. Temos que entender que esta mulher é uma figura de linguagem, e a descrição gloriosa não foge a regra. O fato de estar vestida de sol significa que está recoberta da glória do Senhor Jesus, que é o verdadeiro sol da justiça (Ml. 4:2). A lua simboliza a natureza feminina e sua glória. As estrelas podem mostrar bem a descrição das doze tribos de Israel e seus patriarcas (cf. Gn. 37:9,10). E no verso 2 como explicar a gravidez? Israel várias vezes aparece como uma mulher em dores de parto (Is. 26:17; 66:7-9; Mq. 4:10; 5:3). É bem possível que aqui represente Israel e sua agonia em trazer o Messias ao mundo. Israel chegou a passar várias vezes pelo perigo da extinção, o que poderia muito bem descrever as estratégias de Satanás aniquilar o povo de Deus. Além do mais Cristo nasceu de Israel (cf. Rm. 9; Mq. 5; Is. 9:6; Hb. 7:14; Mt. 1 e Lc. 2). Aqui não há nenhuma menção sobre o nascimento virginal.

Nos versos 3 e 4 João continua: “Então apareceu no céu outro sinal: um enorme dragão vermelho com sete cabeças e dez chifres, tendo sobre as cabeças sete coroas. Sua cauda arrastou consigo um terço das estrelas do céu, lançando-as na terra. O dragão colocou-se diante da mulher que estava para dar à luz, para devorar o seu filho no momento em que nascesse.”. João descreve um outro sinal. Este dragão aqui é com certeza Satanás. Tanto na cultura judaica como nas culturas pagãs as forças do mal eram retratadas como crocodilos, dragões, serpentes e leviatã, a serpente tortuosa. A cor vermelha representa a cor do pecado, do sangue, do fogo e da violência. As sete cabeças podem significar uma sabedoria completa, um intelecto poderoso, o que na realidade não passa da sagacidade de Satanás. Em Ap. 17:9,10 fala que as sete cabeças representam sete montes e sete reis. Alguns vêem aqui a cidade de Roma e o Império Romano redivivo. Estas cabeças têm coroas, o que simboliza o governo, o poder e autoridade de Satanás em seu governo do mal. Os chifres simbolizam poder. Com certeza esta visão está ligada com Dn. 7:7,24. O que isto poderia representar? Representa uma coalizão que sustentará o governo do Anticristo. As sete cabeças podem ser governantes que apóiam, e os dez chifres representa uma perfeição humana[1]. É justamente nisto que o mundo vai cair. Pensará que o governo do Anticristo será perfeito e que não haverá contratempos. Este dragão segundo João, arrastou um terço das estrelas do céu. Aqui temos uma visão do estrago causado por Satanás nos céus quando se rebelou contra Deus. As estrelas representam os anjo. Uma terça parte dos anjos seguiram a Satanás em sua rebelião celestial. Estas hostes satânicas estão agindo na terra como o texto mesmo afirma: “...lançando-as na terra.”. Mas para que? Para perseguir a mulher, o filho e os descendentes. Neste caso Israel, Jesus Cristo em Seu ministério terreno, e todos os que aceitaram a Cristo e se tornaram povo do Messias, quer judeus, quer gentios, no caso a Igreja. O fim do verso 4 nos mostra que Satanás estava pronto para devorar a criança, aguardando o nascimento dela. A mulher é a nação de Israel e Cristo o filho dela. Houve um acontecimento histórico em que Herodes quis matar Jesus (Mt. 2:13-18). Com certeza este acontecimento foi uma estratégia de Satanás em destruir a natureza física do Senhor. Em todo o Seu ministério terreno Jesus foi cercado por Satanás que desejava destruí-lo e desmoralizá-lo.

Nos versos 5 e 6 João continua a descrever: “Ela deu à luz um filho, um homem, que governará todas as nações com cetro de ferro. Seu filho foi arrebatado para junto de Deus e de seu trono. A mulher fugiu para o deserto, para um lugar que havia sido preparado por Deus, para ali a sustentassem durante mil duzentos e sessenta dias.”. Aqui vemos o texto falando do nascimento de Cristo. Ele nasceu para reinar sobre as nações com um cetro de ferro (cf. Sl. 2:7-9). A idéia do cetro ou da vara aponta para o cajado, já que o texto grego refere-se literalmente que Ele pastoreará todas as nações. Ele governará como um monarca absoluto, mas também será o Supremo Pastor. O vocábulo grego poimainein (poimanein) significa pastorear ou cuidar, sendo empregada onze vezes no N.T. (Mt. 2:6; Lc. 17:1; Jo. 21:16; At. 20:28; I Co. 9:7; I Pe. 5:2; Jd. 12; Ap. 2:27; 7:17; 12:5 e 19:15). Embora o Seu governo seja regido pelo ferro, na realidade será de amor, pois pela disciplina e ordem Ele nos tornará Suas ovelhas.

Neste mesmo verso 5 João descreve a ascensão de Cristo. Isto obviamente retrata também a Sua ressurreição. Na cruz parecia que as forças do mal tinham triunfado. Mas Cristo venceu a morte e os poderes do inferno por meio da ressurreição, sendo levado para o céu, estando à direita do Pai.

No verso 6 a mulher foge para o deserto. Já vimos que a mulher representa Israel, e o texto nos aponta para os dias da grande Tribulação. A fuga para o deserto pode revelar a proteção de Deus a Israel. Aqui no caso não representa uma posição geográfica e sim uma condição. Deus protegeu Israel no deserto durante 40 anos (Sl. 78:12-38), apesar da incredulidade do povo. Em Oséias vemos Deus dizendo por meio do profeta que levará Israel para o deserto (Os. 2:14-23), numa alusão clara ao exílio e a restauração da nação. O deserto pode muito bem representar os 1878 anos[2] em que os judeus ficaram espalhados no mundo. Em todo este tempo Deus guardou Israel da extinção, levando este povo no correr da história para o Seu propósito final. Vemos também no fim do verso 6 que este sustento de Deus é para o período final, ou seja os três anos e meio que representam a segunda metade da grande tribulação.

Dos versos 7 a 9 João nos descreve um grande conflito nos céus. Os versos 7 e 8 são descritos por João: “Houve então uma guerra nos céus. Miguel e seus anjos lutaram contra o dragão, e o dragão e seus anjos revidaram. Mas estes não foram suficientemente fortes, e assim perderam o seu lugar nos céus.”. Miguel é o anjo que guarda Israel (Dn. 10:13,21; 12:1) e aquele que luta contra os anjos que guardam as nações pagãs (Dn. 10-12). Na sua epístola, Judas diz que ele lutou contra o diabo pelo corpo de Moisés[3]. Aqui é a menção do conflito entre Lúcifer e seus anjos contra o poder de Deus. O dragão não venceu e por isso foi expulso com seus anjos. Mas o verso 9 nos fala de que forma ocorreu esta expulsão: “O grande dragão foi lançado fora. Ele é a antiga serpente chamada Diabo ou Satanás, que engana o mundo todo. Ele e os seus anjos foram lançados à terra.”. A queda de Satanás foi de uma vez. Aqui João nos mostra as credenciais deste dragão:



- A antiga serpente: Aqui a alusão é de Gn. 3:1-5. A serpente é símbolo do poder astuto e destruidor, que ataca sem misericórdia;

- Diabo: Esse nome, que no grego é DiaboloV (diabolos), significa caluniador, acusador. No N.T. este título é empregado 38 vezes. No livro de Jó ele aparece caluniando o homem de Deus;

- Satanás: Esta palavra tem origem hebraica (GEC), e significa adversário ou acusador. No A.T. esta palavra é usada como nome próprio em apenas três livros: em Zc. 3:1; em Jó; e em I Cr. 21:1.



Este inimigo de Deus tem outros nomes tais como Belial, Azazel e Belbezubul (que deriva de Baal Zebube, ou senhor das moscas; cf. II Rs. 1:3).

João fala que ele engana o mundo todo. Isto nos mostra como Satanás usa sua inteligência para perverter a humanidade e lançá-la contra Deus. Paulo escrevendo aos coríntios adverte: “O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo.” (II Co. 11:3). Satanás sabe como seduzir as pessoas e levá-las a caminhos que parecem corretos, mas que no fim levarão a morte eterna. E ele não faz isto sozinho. João diz que ele e seus anjos foram lançados na terra, e é aqui o campo de ação deles.

Nisto João ouve uma forte voz vinda dos céus. Isto está nos versos 10 a 12. Esta forte voz pode ser de um anjo que anuncia e diz: “Agora veio a salvação, o poder e o Reino do nosso Deus, e a autoridade do seu Cristo, pois foi lançado fora o acusador dos nossos irmãos, que acusa diante do nosso Deus, dia e noite.”. Ele anuncia a vitória completa do Senhor por meio de Jesus Cristo. Esta vitória fala da cruz, mas também fala do que está por vir, quando Satanás será destruído e o reino de Deus será estabelecido de uma vez por todas. Quando isto ocorrer Satanás não poderá mais fazer o que tanto gosta de fazer: acusar os servos do Senhor. Ele não pode nos acusar como nos diz Paulo em Rm. 8:33,34: “Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós.”. No verso 11 a voz continua: “Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do testemunho que deram; diante da morte, não amaram a própria vida.”. Este versículo fala da nossa vitória sobre Satanás. Nós já somos mais do que vencedores (Rm. 8:37) porque esta vitória ocorreu na cruz. Por meio de Jesus Cristo e de Seu sangue derramado na cruz temos vitória sobre Satanás. O que está em foco aqui é a expiação feita por Cristo na cruz, em que Ele nos lavou purificando-nos de todo pecado (cf. Rm. 5:1; Ap. 5:9). Mas a vitória que temos não vem apenas do sacrifício de Cristo, mas também da palavra do testemunho. O que isto significa? Nos mostra a fidelidade. É a nossa profissão de fé diante das armadilhas de Satanás no mundo. É não abrir mão do evangelho e suas prerrogativas mesmo que isto nos traga algum prejuízo. João ouve a voz falar algo muito interessante sobre isto: “...diante da morte, não amaram a própria vida.”. Isto é martírio. Tem a ver com aquilo que Jesus disse em Mt. 24:13: “mas aquele que perseverar até o fim será salvo.”. João está ouvindo uma palavra de consolo para os de sua época que estavam sendo perseguidos. Aparentemente os cristãos que eram jogados no Coliseu, ou assassinados friamente para satisfazerem as loucuras de um imperador, eram perdedores. João ouve uma afirmação diferente. Estes mártires são na realidade os verdadeiros vencedores porque não abandonaram a sua fé em Cristo. Esta é uma promessa para nós também, bem como uma advertência a mantermos a fidelidade ao Senhor. No verso 12 João continua a ouvir a voz: “Portanto, celebrem-no, ó céus, e os que neles habitam! Mas, ai da terra e do mar, pois, o Diabo desceu até vocês! Ele está cheio de fúria, pois sabe que lhe resta pouco tempo.”. O céu festeja a vitória. Os redimidos arrebatados, os mártires de todas as épocas e os anjos se alegram na vitória de Cristo e dos servos de Deus. Mas ao mesmo tempo há uma advertência sobre a terra. Como Satanás não tem mais espaço no céu, ele se volta para terra para espalhar o seu terror e seu ódio. Ele sabe que seu destino final está selado, mas ainda assim tem permissão para exercer seu poder. Imagine como o mundo não ficará no tempo da grande tribulação.

Dos versos 13 a 18 vemos já ação de Satanás na terra. João nos diz no verso 13: “Quando o dragão foi lançado à terra, começou a perseguir a mulher que dera à luz ao menino.”. Nós já vimos que a mulher representa Israel. Entendemos que aqui se refere a segunda metade da grande tribulação. O Anticristo fará uma aliança com Israel e construirá o Templo em Jerusalém. Após três anos e meio vai querer receber a adoração como se fosse um deus, o que provocará a ira dos judeus. Neste tempo Satanás será expulso dos céus e então se levantará contra Israel. O Anticristo reunirá uma coalizão de nações para destruir Jerusalém. No verso 14 João continua: “Foram dadas à mulher as duas asas da grande águia, para que ela pudesse voar para o lugar que havia sido preparado no deserto, onde seria sustentada durante um tempo, tempos e meio tempo, fora do alcance da serpente.”. Aqui há uma clara alusão a Êx. 19:4: “Vocês viram o que fiz ao Egito e como os transportei sobre asas de águias e os trouxe para junto de mim.”. Aqui Deus promete cuidar de Israel durante os três anos e meio e Satanás não conseguirá sucesso. Nos versos 15 e 16 João descreve: “Então a serpente fez jorrar da sua boca água como um rio, para alcançar a mulher e arrastá-la com a correnteza. A terra, porém, ajudou a mulher, abrindo a boca e engolindo o rio que o dragão fizera jorrar da sua boca.”. Em alguns textos da Bíblia a água pode simbolizar a ira de Deus (Os. 5:10) ou o juízo sobre os ímpios (Sl. 33:6; 124:4; Is. 43:2). Aqui pode simbolizar uma diversidade de ações de Satanás contra Israel, mas isto será em vão. No verso 17 João ainda descreve: “O dragão irou-se contra a mulher e saiu para guerrear contra o restante da sua descendência, os que obedecem aos mandamentos de Deus e se mantêm fiéis ao testemunho de Jesus.”. A perseguição não será apenas contra os judeus, mas também com todos que não adoram a imagem da besta e se mantêm fiéis a Cristo. Quem seriam estes? Gentios que ficaram e não foram arrebatados. Estes foram selados por Deus para resistir a este período tão difícil. Nos últimos dias ficará claro o objetivo de Satanás. Ele levará a humanidade a uma guerra contra Deus, Israel e a igreja que não foi arrebatada[4]. E este capítulo termina no verso 18 dizendo: “Então o dragão se pôs em pé na areia do mar.”[5]. Este versículo ligará o capítulo 13. Não conseguindo destruir Israel e os seguidores de Jesus, Satanás chamará a besta como principal instrumento de sua perseguição. Mas isto veremos na próxima parte.
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