Parte 16 - O anjo e o livro
Ap. 10:1-11



Antes que a sétima trombeta seja revelada vemos João presenciando algo interessante. Vimos anteriormente que as trombetas falam do juízo de Deus sobre a terra e a iniqüidade da humanidade. Aqui temos um parêntesis entre a sexta e a sétima trombeta. Mas com certeza há uma mensagem muito importante ao nosso coração neste capítulo.

João no verso 1 começa dizendo: “Então vi outro anjo poderoso, que descia dos céus. Ele estava envolto numa nuvem, e havia um arco-íris acima de sua cabeça. Sua face era como o sol, e suas pernas eram como colunas de fogo.”. É interessante notar que João não está mais no céu, e sim na terra, pois vê o anjo descer do céu. Um outro ponto importante é distinguir o anjo. Que anjo é este? João diz que viu outro anjo, o que pode nos mostrar uma diferença entre este e o anterior em 8:3. É possível que seja o mesmo anjo que aparece em 5:2. Aqui nós não podemos confundir este anjo com Cristo, apesar das semelhanças. Todos os anjos mencionados por João são verdadeiramente anjos, caídos ou santos. No apocalipse Cristo nunca é chamado de anjo. É possível que este anjo seja Gabriel, já que o seu nome significa “Deus mostrou-se forte”. O fato de estar envolto na nuvem está com certeza correlacionado com Ezequiel 1:4. A nuvem é símbolo da majestade oculta. As nuvens são veículos dos quais seres celestiais sobem ou descem (Sl. 104:3; Dn. 7:13; At. 1:9). Há várias ligações entre Cristo e as nuvens (Ap. 1:7; 14:14-16), porém aqui não é este o caso. O arco-íris acima da cabeça pode significar um diadema de glória ou simbolizar esperança como em 4:3. O rosto como sol é identificado com Cristo em 1:16. A idéia é de poder, majestade e glória. Aqui o anjo lembra o Cristo glorificado (Dn. 12:3; Mt. 13:43). E as pernas como colunas de fogo fala com certeza do juízo que ainda está por vir. Com certeza João têm em mente textos do A.T. (Ez. 1:7; Dn. 10:6; 12:7).

Este anjo poderoso – quem sabe Gabriel – é descrito por João da seguinte forma: “Ele segurava um livrinho, que estava aberto em sua mão. Colocou o pé direito sobre o mar e o pé esquerdo sobre a terra, e deu um alto brado, como um rugido de um leão. Quando ele bradou, os sete trovões falaram.” (v. 2,3). Este anjo estava com o livrinho em sua mão esquerda (ver v. 5). Este livro é o mesmo do capítulo 5. Ele está aberto, ou seja, sem selos, e sua revelação pode ser conhecida. Ele é parte do livro de Apocalipse. O fato de este anjo colocar os seus pés no mar e na terra revelam que ele é capaz de cobrir uma grande área, e que seu juízo será despejado em toda a humanidade. Esta visão descreve a majestade e o poder deste anjo. Este anjo brada com grande voz, ou seja, ele anuncia de forma clara e compreensível, de forma a chamar a atenção. O fato de mencionar o rugido do leão é que a mensagem vem daquele que é o Leão da Tribo de Judá (Ap. 5:4). A sua mensagem lançará terror sobre a terra. Em Amós 3:8 o profeta nos diz: “O leão rugiu, quem não temerá? O SENHOR, o Soberano, falou, que não profetizará?”. A voz como leão anuncia o juízo. Mas o mais interessante é o que vem logo após. João diz que após o bradar do anjo, sete trovões passaram a falar. O que representaria estes sete trovões? Se tomarmos por base o Sl. 29:3-9, estes trovões representariam a voz de Deus. Mas falando o que?

É isto que vem logo no verso 4: “Logo que os sete trovões falaram, eu estava prestes a escrever, mas ouvi uma voz dos céus, que disse: Sele o que disseram os sete trovões e não o escreva.”. Isto nos mostra que João entendeu o que foi falado, porém ele não escreveu porque não foi permitido. Esta voz dos céus que deu a ordem é a voz de Cristo. Mas que mensagem seria esta? Não sabemos e seria tolice buscar uma interpretação além daquilo que a Bíblia diz. Com certeza João entendeu e foi edificado pessoalmente com a visão, mas isto não significa que as outras pessoas entenderiam. Tentar especular este texto não nos levará a lugar algum.

Nisto o anjo faz um juramento diante de Deus: “Então o anjo que eu tinha visto em pé sobre o mar e sobre a terra levantou a mão direita para o céu e jurou por aquele que vive para todo o sempre, que criou os céus e tudo o que neles há, a terra e tudo o que nele há, e o mar e tudo o que nele há, dizendo: Não haverá mais demora! Mas, nos dias em que o sétimo anjo estiver para tocar sua trombeta, vai cumprir-se o mistério de Deus, da forma como ele o anunciou aos seus servos, os profetas.” (v. 5-7). O juramento feito com a mão direita era costumeiro. Este juramento foi feito com a mão levantada para o céu, ou seja, o anjo estava chamando Deus como testemunha. Esta parte está intimamente ligada a Dn. 12:7: “O homem vestido de linho, que estava acima das águas do rio, ergueu para o céu a mão direita e a mão esquerda, e eu o ouvi jurar por aquele que vive para sempre, dizendo: Haverá um tempo, tempos e meio tempo. Quando o poder do povo santo for finalmente quebrado, todas essas coisas se cumprirão.”. Este juramento é baseado na eternidade de Deus, ou seja significa que é algo duradouro e firme, e em sua atividade criadora, dando a este juramento o caráter universal a declaração. O juramento diz que não haverá mais demora. Mas de que? Do fim dos tempos. João aqui, como Daniel (Dn. 12:7) no A.T. estão ligados. No caso de Daniel a profecia era acerca do império da Síria e a opressão de Antíoco Epifanes IV. Quando Daniel fala de um tempo, dois tempos e metade de um tempo, a idéia é de três anos e meio. No caso aqui João não faz menção explícita deste tempo, mas é bem possível que fale do tempo final da Grande Tribulação. O fim não será adiado. É hora de responder as orações dos mártires e dos santos. Faltará pouco tempo até o fim de tudo.

Tudo isto nos faz entender que o juízo da sétima trombeta está por vir. Estes acontecimentos farão com que o mistério de Deus se cumpra. Mas que mistério é este? Antes é importante definirmos o termo mistério. No N.T. “mistério” não é algo que os homens não possam compreender, algo dado apenas para alguns escolhidos. A palavra não traz nenhuma idéia mística. A palavra fala de um segredo de Deus, de algo que estava planejado por Ele e que estivera oculto, mas que agora foi revelado aos homens. Desta forma “mistério” é um segredo revelado. Sendo assim, o mistério “é todo o plano de redenção, que inclui o julgamento do mal e a salvação escatológica do povo de Deus”[1]. A tradição profética é o veículo de transmissão da vontade divina. A Palavra de Deus revela este mistério aos homens.

E por fim entramos na parte final deste capítulo. João diz: “Depois falou comigo mais uma vez a voz que tinha ouvido falar dos céus: Vá, pegue o livro aberto que está na mão do anjo que se encontra em pé sobre o mar e sobre a terra.” (v. 8). Cristo novamente fala com João, dando uma ordem para que ele tome o restante da revelação da mão do anjo. Esta parte está relacionada com Ez. 2:8-3:3. No verso 9 vemos esta constatação: “Assim me aproximei do anjo e lhe pedi que me desse o livrinho. Ele me disse: Pegue-o e coma-o! Ele será amargo em seu estômago, mas em sua boca será doce como mel.”. No livro de Ezequiel a mensagem era muito amarga, mas para o profeta era doce. Comer o rolo significa que João está assimilando a mensagem profética. Só que João não está insensível com o que há de acontecer. Ele come e digere a Palavra como todo o proclamador da Palavra de Deus. O gosto reflete que o profeta reage de forma diferenciada diante da mensagem. O doce é a primeira impressão, mas o que de fato permanece é aquilo que vai ficar no estômago, ou seja o amargo. Possivelmente a idéia é que o conteúdo do livrinho seja de difícil assimilação. O mal será derrotado, mas para isto haverá grande agonia entre os homens.

E então nos versos 10 e 11 João relata: “Peguei o livrinho da mão do anjo e o comi. Ele me pareceu doce como o mel em minha boca; mas, ao comê-lo, senti que o meu estômago ficou amargo. Então me foi dito: É preciso que você profetize de novo acerca de muitos povos, nações, línguas e reis.”. João faz como lhe é mandado e ele experimenta a sensação já antes predita. João sabia que a Palavra de Deus é doce para aqueles que a amam, mas a dura mensagem pregada torna-se amarga, principalmente por ver os homens longe de Deus sofrendo as conseqüências de seus erros.

Mas o verso 11 dá a razão de toda esta visão. O pequeno rolo é uma reafirmação do ministério de João. O fim está próximo e a sétima trombeta perto de ser anunciada. Mas antes que as últimas coisas sejam anunciadas, João é confirmado em sua missão profética. A profecia refere-se a toda a humanidade. Na perspectiva primeira fala do Império Romano e todos os povos submissos a Roma. Na perspectiva escatológica a mensagem é dirigida a sociedade apóstata, que estará debaixo do domínio do Anticristo. João é convocado a continuar a profetizar. Ainda há muito a dizer. Com isto o capítulo 10 termina. João é confirmado como aquele que recebe as revelações de Jesus Cristo sobre os últimos dias. João não falará exclusivamente a um povo, como nos moldes de Ezequiel, e sim falará ao mundo.
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