Parte 15 - Os dois Ais
Ap. 9:1-21



Dividimos o estudo das trombetas para facilitar a compreensão. Vimos na parte passada que as trombetas referem-se a juízos divinos que caem sobre a humanidade corrompida e distante de Deus. Observamos que a primeira trombeta afetará a flora, a segunda atingirá os oceanos e toda sua biodiversidade, a terceira as fontes de água potável e a quarta trombeta atingirá parte dos céus. Vimos também que João viu uma águia pronunciando três “ais” de condenação, indicando que as trombetas que ainda soariam seriam terríveis. Vejamos agora as últimas três trombetas.

A quinta trombeta está nos versos de 1 a 12. A visão desta trombeta é aterradora e profundamente cheia de simbolismos. O verso 1 nos diz que João viu “uma estrela que havia caído do céu sobre a terra.”. É interessante notar que a descrição de João. Esta estrela é diferente daquelas que são descritas no capítulo 8. Aqui João nos fala com certeza de um ser angelical e não de meteoros e cometas. Isaías 14:12 nos diz: “Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações.”. Em Lucas 10:18, o Senhor disse: “...Eu vi Satanás caindo do céu como relâmpago.”. É bem possível que aqui esteja uma descrição da queda de Satanás e de sua ação sobre a terra. Outros acham no entanto que esta estrela seja um anjo realizando um propósito divino.

O texto prossegue, dizendo que a esta estrela “foi dada a chave do poço do Abismo.” (v.1). A chave indica controle ou autoridade. O abismo fechado precisa ser aberto. Na realidade a autoridade não está no anjo que abre o abismo e sim naquele que a deu. O texto é claro em afirmar que o anjo recebeu a chave. Se interpretarmos esta estrela como Satanás, entendemos que ele não existe por si só e sim por uma vontade permissiva de Deus. Se interpretarmos como um anjo de outra ordem que está realizando um propósito divino, então entendemos que Deus está realizando Sua vontade soberana no correr da história. Nas duas interpretações Deus é o agente Soberano.

Esta chave abriria o poço do abismo. Literalmente no grego seria “fenda do abismo” (freatoV thV abussou). Abismo, na literatura bíblica, era usada de diversas formas. Podia indicar águas muito fundas (Gn. 1:2; 7:11; Sl. 107:26), indicar a profundidade da terra (Sl. 71:20) e como indicação do lugar dos mortos (Rm. 10:7). É no abismo que a besta e o Anticristo estava antes de aparecer na terra (Ap. 11:7). E será no abismo a prisão temporária de Satanás (Ap. 20:3). Às vezes é representado como lugar ou a prisão de demônios (Lc. 8:31). Na literatura judaica o abismo é visto como um lugar caótico e horrendo, lugar de juízo e punição de anjos caídos (I Enoque 17:7,8; 18:12-16).

A visão aqui é que deste lugar sairão multidões de demônios que vão perseguir os homens por toda a terra. Os versos 2 e 3 nos dizem: “Quando ela abriu o Abismo, subiu dele fumaça como a de uma gigantesca fornalha. O sol e o céu escureceram com a fumaça que saía do Abismo. Da fumaça saíram gafanhotos que vieram sobre a terra, e lhes foi dado poder como o dos escorpiões da terra.”. É possível que aqui esteja a visão do Gehenna[1] ou inferno. Deste lugar terrível haverá uma invasão que trará terror aos homens. A visão dos gafanhotos está bem próxima a oitava praga do Egito (Êx.10:4-15) e com a descrição apocalíptica de Joel 2:10. No A.T. os gafanhotos são símbolos da ira divina, e neste caso é isto que a quinta trombeta quer dizer. Que ao abrir o abismo, da fumaça sairá demônios que afligirão a vida dos homens. Como o mundo estará passando a grande tribulação, imagine você o que não ocorrerá na terra quando esta trombeta de juízo soar. O escorpião é símbolo das forças espirituais malignas (Lc. 10:19).

O verso 4 nos diz: “Eles receberam ordens para não causar dano nem à relva da terra, nem a qualquer planta ou árvore, mas apenas àqueles que não tinham o selo de Deus na testa.”. É interessante notar que as quatro primeiras trombetas atingem o ambiente em que o homem vive. Agora a ordem é de não atingir este ambiente e sim os homens que não estão selados com o selo de Deus na testa. Esta é a razão porque Deus ordenou selar os seus da grande tribulação. Perceba que este livramento e proteção de Deus são quanto à ordem espiritual e não de ordem física.

Parece-nos difícil entender como cristãos, que aceitaram a Cristo, ficarão na grande tribulação e não serão arrebatados. É importante entendermos que a vida espiritual é um constante crescer em santidade e consagração. Infelizmente muitos cristãos ainda não acordaram para a realidade de que a vida espiritual autêntica é fruto de uma comunhão íntima com o Filho de Deus. Espiritualidade não é viver nos moldes da religião e da denominação. É viver nos passos de Jesus, sendo cheio do Espírito (Ef. 5:18), deixando o Ele formar em nós o caráter de Cristo (Gl. 5:21,22). O arrebatamento será um galardão divino para aqueles que viveram dignamente em sua presença. Aqueles que aceitaram a Cristo – e nós não sabemos o que se passa dentro de cada coração – mas que não deram muita atenção quanto a vida espiritual mais fervorosa, para estes a tribulação será um momento de purificação. A estes Deus selará para este momento horrendo em que as hostes demoníacas dominarão a terra.

Nos versos 5 e 6 João diz: “Não lhes foi dado poder para matá-los, mas sim para causar-lhes tormento durante cinco meses. A agonia que eles sofreram era como a da picada do escorpião. Naqueles dias os homens procurarão a morte, mas não a encontrarão; desejarão morrer, mas a morte fugirá deles.”. Aqui vemos que há uma permissão dada por Deus para afligir a humanidade. Nem mesmo as forças diabólicas têm liberdade de fazer o que queiram. Quanto ao tempo de tormento não há muita concordância. É certo que será um período curto e que os homens não morrerão. A agonia será como a picada de um escorpião. Raras vezes a picada de um escorpião é fatal, mas a dor é quase que insuportável. Por causa deste sofrimento muitos buscarão na morte o alívio. Sören Kierkegaard, filósofo existencialista e teólogo, escreveu: “...o tormento do desespero é exatamente esse, não ser capaz de morrer...Quando a morte é o maior perigo, o homem espera viver; mas quando alguém vem a conhecer um perigo ainda mais temível, espera morrer. E assim, quando o perigo é tão grande que a morte se torna a única esperança, o desespero consiste do desconsolo de não ser capaz de morrer.”[2]. Esta com certeza será a sensação de muitos na grande tribulação.

Dos versos 7 a 10 João nos dá a descrição destes gafanhotos. Vejamos isto de forma mais detalhada:



- “Os gafanhotos pareciam cavalos preparados para a batalha. Tinham sobre a cabeça algo como coroas de ouro, e o rosto deles parecia rosto humano.” (v.7). Esta visão é baseada com certeza no livro de Joel (Jl. 2:4). A semelhança é de cavalos de guerra. Os poetas árabes comparavam as cabeças dos gafanhotos com cabeças de cavalos; seus corpos semelhantes a serpentes; seu peito semelhante ao do leão e suas antenas aos cabelos longos das mulheres. Com certeza a visão é de invasão. A coroa pode descrever o sucesso desta investida. Os rostos como de homens talvez indique a inteligência destes demônios.

- “Os cabelos deles eram como os de mulher e os dentes como os de leão.” (v.8). Não há concordância quanto aos cabelos de mulher. É possível que seja uma alusão a poesia árabe. Outros acham que pode indicar sensualidade. Os dentes do leão aparecem também em Joel 1:6. A idéia é mostrar a ferocidade desta praga demoníaca.

- “Tinham couraças como couraças de ferro, e o som das suas asas era como o barulho de muitos cavalos e carruagens correndo para a batalha.” (v.9). A descrição aqui lembra e muito veículos de guerra como o helicóptero ou aviões de combate. O ferro da a impressão de que estes invasores serão muito fortes. O barulho pode se referir a carros de combate em direção da batalha. É provável que esta influência diabólica leve os homens a mobilizações militares.

- “Tinham caudas e ferrões como de escorpiões, e na cauda tinham poder para causar tormento aos homens durante cinco meses.” (v.10). Aqui está a confirmação do verso 5. Com certeza este trecho de quatro versículos falam de poderes demoníacos que invadirão a terra e trarão terror e sofrimento aos homens.



Mas depois desta descrição os versos 11 e 12 trazem a seguinte afirmação: “Tinham um rei sobre eles, o anjo do Abismo, cujo nome em hebraico, é Abadom e, em grego, Apoliom. O primeiro ai passou; dois outros ais ainda virão.”. Quem seria este rei do abismo? Satanás é este rei. Ele é quem vai comandar esta maquina de destruição. Abadom é um termo hebraico que significa “destruição, ruína”. Apoliom seria um termo grego equivalente. Abadom no A.T. refere-se, algumas vezes, ao mundo dos mortos (Jó 31:12; Sl. 88:11) ou pode aparecer ligado com o Sheol (Jó 26:6; 28:22; Pv. 15:11; 27:20). Tudo isto, segundo o anjo, é apenas o primeiro ai. Isto significa dizer que ainda tem mais por vir.

A sexta trombeta encontra-se nos versos 13 a 21. João ouviu uma voz ao ressoar a trombeta. A voz vinha das pontas do altar de ouro. Este altar já apareceu no Apocalipse quando se abriu o sétimo selo (8:3). Uma ordem é dada ao sexto anjo: “Solte os quatro anjos que estão amarrados junto ao grande rio Eufrates.” (v.14). Quem seriam estes quatro anjos? Por que estariam eles presos junto ao Eufrates?

Não há um consenso de quem seriam estes quatro anjos, mas todos concordam que são seres maléficos. O fato de eles estarem amarrados comprova isto. Além do mais, nos apocalipses judaicos, aparecem idéias de anjos do castigo ou da destruição. O número quatro pode dar a idéia de que eles afligirão os quatro cantos do mundo, ou seja, o mundo inteiro.

O rio Eufrates era conhecido como “o grande rio” por ser o maior da região da Palestina. O Eufrates era o limite ideal da terra prometida no Oriente (Gn. 15:18; Dt. 1:7; Js. 1:4). Tinha origem nos montes da Armênia, correndo para o sul e sudeste, até unir-se com o rio Tigre na baixa Babilônia, chegando a ter entre 2600 a 2900 Km. Além do Eufrates ficavam reinos pagãos como Assíria, que se tornou na literatura do A.T. símbolo dos inimigos de Israel e de Deus (Is. 7:20; 8:7; Jr. 46:10).

A sexta trombeta revela que estes anjos malignos serão libertos para produzir ainda mais destruição. Vejamos como isto é colocado no texto sagrado:



- “Os quatro anjos, que estavam preparados para aquela hora, dia, mês e ano, foram soltos para matar um terço da humanidade.” (v.15). Na grande tribulação não haverá impedimento para uma ação diabólica no mundo. Estes anjos só aparecerão quando for o momento certo, pois Deus permitirá a ação deles. Com certeza o mundo estará em um caos sem precedentes. O objetivo é claro: matar um terço da humanidade. São muitas pessoas, mas não é a maioria. Este julgamento atinge os ímpios e não o povo de Deus. A quinta trombeta traz sofrimento; a sexta traz a morte.

- “O número dos cavaleiros que compunham os exércitos era de duzentos milhões; eu ouvi o seu número.” (v.16). É possível que estes anjos influenciem um grande exército para realizar uma destruição em massa. No grego literalmente aparece a seguinte frase: “dois dez mil de dez mil”. O espanto de João é quanto ao tamanho do exército que marcha. É importante entender que esta trombeta nada tem a ver com a batalha do Armagedom. Alguns países no mundo têm um exército com este tamanho, como a China por exemplo.

- “Os cavalos e os cavaleiros que vi em minha visão tinham este aspecto: as suas couraças eram vermelhas como o fogo, azuis como o jacinto e amarelas como o enxofre. A cabeça dos cavalos parecia a cabeça de um leão, e da boca lançavam fogo, fumaça e enxofre.” (v.17). A descrição aqui é da cavalaria. O cavalo na antiguidade representava um objeto de terror quando cavalgado por um homem violento. A visão é de um exército em marcha para a guerra. A descrição das cores está ligada a cabeça dos cavalos. A cabeça de um leão pode dar a idéia de um caçador sem misericórdia. Da boca saía fogo (vermelho), fumaça (azul) e enxofre (amarelo). Com certeza aqui temos o poder destruidor do inferno que vai ser derramado sobre os homens.

- “Um terço da humanidade foi morto pelas três pragas: de fogo, fumaça e enxofre.” (v.18). Este versículo é uma repetição, em forma composta, do que já vimos acima. Uma terça parte será atingida por esta grande destruição. Mas a despeito do caos Deus ainda estará no controle. Os três elementos, que são chamados de pragas no texto bíblico, referem-se com certeza a uma guerra.

- “O poder dos cavalos estava na boca e na cauda; pois as suas caudas eram como cobras; tinham cabeças com as quais feriam as pessoas.” (v.19). Neste versículo os cavalos se assemelham muito com os gafanhotos. A diferença é que agora não há só tortura e sofrimento. Há a morte também. A idéia é que estes seres demoníacos tragam um momento nunca visto de terror e pavor sobre a humanidade.



E o texto termina falando sobre o restante que sobreviverá. No verso 20 João diz: “O restante da humanidade que não morreu por essas pragas, nem assim se arrependeu das obras das suas mãos; eles não pararam de adorar os demônios e os ídolos de ouro, prata, bronze, pedra e madeira, ídolos que não podem ver, nem ouvir, nem andar.”. Entendemos a partir deste texto que Deus permitiu tudo isso para ainda demonstrar a sua misericórdia, esperando que os homens se arrependessem. Mas tudo isso não surtirá o efeito esperado. Por que? Porque a humanidade estará totalmente envolvida no pecado. E quem encabeça a lista de pecados é a idolatria.

A mentalidade judaica sempre associava a adoração e o poder dos demônios à idolatria. Essa idéia aparece em I Co. 10:20, em que Paulo entendia que por trás dos ídolos havia demônios. Por isso sacrificar aos ídolos seria o mesmo que se associar a demônios. A idéia de ídolos de pedra, madeira ou metal aparece muito no A.T. mostrando que este tipo de adoração é sem vida como os próprios ídolos (Sl. 115:4-8; 135:15-18; Dn. 5:23). A idolatria aparece no topo da lista porque dali se derivava todos os demais pecados e vícios.

E no verso 21 João continua descrevendo os pecados desta humanidade da grande tribulação: “Também não se arrependeram dos seus assassinatos, das suas feitiçarias, da sua imoralidade sexual e dos seus roubos.”. Imagine você que, se hoje está ruim, não queira nem imaginar o que será após o arrebatamento. O tempo será tão difícil e tão cheio da influência maléfica, que não haverá lugar para o arrependimento. As obras da carne reinarão. Nesta lista encabeçada pela idolatria aparecem mais quatro pecados:



- Assassinatos: O homem perderá a visão da fraternidade e o ódio tomará conta do mundo. A violência ganhará contornos nunca vistos. Isto com certeza será uma característica muito forte da sociedade sem Deus.

- Feitiçarias: A raiz grega é farmakwn (pharmakôn), que significa “droga”. A palavra moderna farmácia vem deste vocábulo. Os homens sem Deus correrão para misticismos e magias controladas por demônios. Não é impossível pensar que neste período muitos busquem as drogas (LSD, maconha, crack, cerveja, etc.) para dar sentido a vida. Sabemos que por trás de tudo isso há uma influência diabólica.

- Prostituição: A palavra grega aqui é porneia (porneia) e pode ser traduzida como “imoralidade, prostituição”. É uma palavra que indica toda e qualquer forma de pecado sexual. A idolatria da antiguidade incentivava a imoralidade.

- Roubos: Alguns têm um amor tão desenfreado ao dinheiro que são capazes de tudo. Os roubos, a corrupção, a troca de favores e muito mais continuarão acontecendo.



Toda a visão que João passa é impressionante. Mesmo os homens sofrendo por causa de sua impiedade, ainda assim não se arrependerão. Mas perceba que tudo isto virá sobre os ímpios e não sobre os selados por Deus para passarem pela tribulação. É importante notar que o livramento que Deus dará aos selados é em termos espirituais e não físicos.

Toda esta parte que estamos estudando é muito difícil porque vários fatos ocorrem ao mesmo tempo e João parece descrevê-los em ordem. Outra dificuldade é ao grande número de símbolos. Mas o mais importante é conseguirmos tirar a verdadeira mensagem: Que Cristo exige de nós uma vida mais santa e consagrada antes que o arrebatamento chegue. Os primeiros cristãos foram consolados com a mensagem de João. Com certeza nas perseguições eles se sentiram amparados pelo Senhor. Vivamos hoje como se Cristo viesse nos buscar amanhã.
LEITURA BÍBLICA
Pegue aqui os arquivos do Programa de Leitura Bíblica


ESTUDOS BÍBLICOS
Estudos sobre a Bíblia, como deve ser a vida do cristão, e louvor.