Parte 12 - Os Selos
Ap. 6:1-17



Estamos continuando a visão progressiva que vem desde o quarto capítulo. Agora entramos no momento em que o Cordeiro, que é digno de abrir os selos, revela o que está no livro selado. O livro com certeza fala dos os últimos acontecimentos em que a grande tribulação é o fato central. Muitas questões são levantadas a partir deste capítulo. Os cristãos estarão ou não na grande tribulação? Quando se dará o arrebatamento? Quem estaria apto para o arrebatamento? Com certeza são perguntas inquietantes e suas respostas não são tão fáceis de se responder. Vejamos a partir de agora os selos e seus significados. Antes vale a pena salientar que neste capítulo estão contidos seis dos sete selos.

O primeiro selo encontra-se nos dois primeiros versículos (6:1,2): “Observei quando o Cordeiro abriu o primeiro dos sete selos. Então ouvi um dos seres viventes dizer com voz de trovão: Venha! Olhei, e diante de mim estava um cavalo branco. Seu cavaleiro empunhava um arco, e foi-lhe dada uma coroa; ele cavalgava como vencedor determinado a vencer.”. Na medida em que Cristo abre os selos, quatro cavalos surgem como manifestação dos propósitos divinos. Em Zc. 6:1-8 aparece a mesma visão dos cavalos, em que estes saem para percorrer a terra como instrumentos da ira divina.

Mas quem seria o cavalo branco e o seu cavaleiro? Com certeza não há dúvidas quanto aos outros cavalos, mas quanto a este primeiro há muitas especulações. O cavalo era usado nas guerras. Há várias hipóteses sobre o cavalo branco, das quais vamos apresentar algumas:



· Há uma interpretação histórica que diz ser um invasor conquistador. Porém esta interpretação não condiz com a visão de João que se referia não àqueles dias e sim a posteriores;

· Outros acham que simboliza a vitória em Cristo, em qualquer século, ante a perseguição ou qualquer provação.

· Há os que interpretam como algo que acontecerá antes da segunda vinda. Neste caso o cavaleiro do cavalo branco seria o Anticristo. Ele seria uma imitação do verdadeiro Cristo, prometendo paz, estabelecendo um milênio simulado.

· Mas a posição mais coerente talvez seja esta. O cavalo branco e seu cavaleiro representam a pregação do evangelho de Cristo em todo mundo. O cavaleiro não seria propriamente o Senhor Jesus, e os detalhes ao cavaleiro não enfraquecem esta dedução. A igreja representa o Senhor na terra. Quanto aos outros símbolos é importante destacá-los. O arco é símbolo da guerra à longa distância. Também pode simbolizar vitórias divinas: “Preparaste o teu arco; pediste muitas flechas...” (Hc. 3:9; ver ainda Is. 41:2; 49:2,3; Zc. 9:13; Sl. 45:4,5). A coroa simboliza autoridade, e está ligada a expressão “...ele cavalgava como vencedor determinado a vencer.”. O evangelho caminha em vitórias e com a autoridade dada por Cristo, mas não significa que em uma completa e absoluta vitória. O evangelho será pregado em todo o mundo, mas não significa que todos aceitarão o evangelho, apesar de suas vitórias.



O segundo selo (6:3,4) nos fala do segundo cavalo e seu cavaleiro: “Quando o Cordeiro abriu o segundo selo, ouvi o segundo ser vivente dizer: Venha! Então saiu outro cavalo; e este era vermelho. Seu cavaleiro recebeu poder para tirar a paz da terra e fazer que os homens se matassem uns aos outros. E lhe foi dada uma grande espada.”. Na mitologia antiga, Marte, o planeta vermelho, era o deus da guerra. O vermelho é a cor do sangue, dando a entender o derramamento deste. A grande espada significa também isto. Aqui o simbolismo é claro. Haverá um caos social tremendo, em que os homens se odiarão. É bem possível que este segundo selo refira-se ao momento posterior ao arrebatamento (o cavalo branco). Um planeta sem Deus e sem uma ação do Espírito Santo na vida das pessoas tornará a vida humana caótica. É bem capaz que nisto ocorra uma guerra em proporções mundiais.

O terceiro selo (6:5,6) nos mostra o terceiro cavalo e seu cavaleiro: “Quando o Cordeiro abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizer: Venha! Olhei, e diante de mim estava um cavalo preto. Seu cavaleiro tinha na mão uma balança. Então ouvi o que parecia uma voz entre os quatro seres viventes, dizendo: Um quilo de trigo por um denário, e três quilos de cevada por um denário, e não danifique o azeite e o vinho.”. O simbolismo do cavalo preto e seu cavaleiro trazendo uma balança significa escassez. A balança era usada para pesar o trigo. Em tempos de escassez a comida precisa ser distribuída com economia. A cor representa com certeza a fome que virá em conseqüência a guerra (o segundo selo).

O verso 6 nos mostra a amplitude deste momento. O denário era uma moeda de prata que correspondia ao salário médio de um dia de trabalho. O trigo era o principal alimento no mundo antigo, e a cevada era o alimento dos pobres porque era mais barato. Uma medida de trigo era o consumo diário médio de um homem. Isto demonstra a situação de escassez, pois um homem gastava tudo o que podia ganhar em um dia para comprar alimento barato para a família. Em tempos normais um denário podia comprar de doze a quinze vezes mais alimento.

Outro ponto importante é sobre a menção que aparece no final do versículo: “...e não danifique o azeite e o vinho.”. Na antiguidade estes eram artigos de luxo, e significa que, mesmo o mundo passando uma grande tribulação, os ricos continuarão a viver bem, devido às riquezas acumuladas. Em momentos de escassez azeite e vinho são luxo. Isto também nos mostra a insensibilidade deste momento.

O quarto selo (6:7,8) nos fala do quarto cavalo e seu cavaleiro: “Quando o Cordeiro abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente dizer: Venha! Olhei, e diante de mim estava um cavalo amarelo. Seu cavaleiro chamava-se morte, e o Hades o seguia de perto. Foi-lhes dado poder sobre um quarto da terra para matar pela espada, pela fome, por pragas e por meio dos animais selvagens da terra.”. Este cavalo representa a morte pela fome, peste e feras. O vocábulo grego clwroV (chlôros) tem várias traduções, mas pode significar cor cinza pálido ou amarelado. A idéia é que não representa a morte propriamente dita, mas a morte causada por outras coisas.

O cavaleiro é o Hades, que pode ser traduzido por inferno, sepulcro ou morte. Na concepção grega, Hades era o deus do mundo inferior. Aqui o reino da morte é personificado, e neste caso o símbolo refere-se à morte no sentido literal. Os que morrem pelas pragas, guerras, fome e animais selvagens o Hades recolhe para si. A cena com certeza é triste e aterradora. Na grande tribulação a morte reinará em um mundo sem Deus.

O quinto selo (6:9-11) nos diz o seguinte: “Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas daqueles que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que deram. Eles clamavam em alta voz: Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da terra e vingar o nosso sangue? Então cada um deles recebeu uma veste branca, e foi-lhes dito que esperassem um pouco mais, até que se completasse o número dos seus conservos e irmãos, que deveriam ser mortos como eles.”. Diferente dos outros selos este é totalmente diferente. Há várias perguntas aqui: Quem são estes que estão debaixo do altar? Que altar é este? Estes são os mártires ou aqueles que não negaram a Cristo na grande tribulação? Vejamos por partes este selo:



· O Altar: João viu um altar, mas não há menção nenhuma de que altar é este. Ladd vai dizer que “a fluidez do pensamento apocalíptico...possibilita isto.”[1]. É bem possível que isto, como tudo em Apocalipse, também seja simbólico. Neste caso o símbolo seria de um lugar para nos aproximarmos de Deus, mediante o sacrifício e a oração. É no altar que o homem pode trazer seus dons e talentos em lealdade a Deus.

· Quem seriam estes que estavam debaixo do altar? É possível que sejam todos os mártires da história da Igreja, inclusive aqueles que sofreram perseguição na Grande Tribulação. Isto com certeza comunicou e muito no tempo de João. A igreja sofria perseguição e se identificava com a mensagem. O fato de estarem debaixo do altar significa que eles foram martirizados em nome de Deus, e não que estão em um estado intermediário. No A.T. o sangue das vítimas oferecidas em sacrifício era derramado à base do altar (Lv. 4:7). Várias vezes o pensamento cristão emprega esta linguagem (Paulo, p.ex.: II Tm. 4:6; Fp. 2:17). Todos eles morreram por causa da Palavra de Deus e do testemunho que deram. No caso dos que ficarem na Grande Tribulação, o testemunho terá de ser escrito com o próprio sangue.



No verso 10 aparece um clamor destes mártires, clamando justiça ao Senhor. Assim como Deus disse a Caim: “...Escute! Da terra o sangue do seu irmão está clamando.” (Gn. 4:10), o clamor do sangue dos mártires também clamam por justiça divina. Com certeza ela vem por meio do Deus santo e verdadeiro.

No verso 11 aparece uma descrição muito interessante. Eles receberam “vestes brancas”, ou seja, um símbolo de felicidade e repouso, que serão completados quando Cristo se manifestar vitorioso de uma vez por todas e eles receberem a ressurreição do corpo. A recomendação é que eles aguardem um pouco mais, “até que se complete o número dos seus conservos e irmãos...”. A idéia aqui é que, enquanto durar a Grande Tribulação, ainda outros morrerão por causa da perseguição do Anticristo.

E por fim O sexto selo (6:12-17). Quando este foi rompido, João viu uma série de fenômenos, que indicam o fim dos tempos. É importante vemos isto detalhadamente:



· “...Houve um grande terremoto.” (v.12a). Os terremotos sempre foram vistos como julgamentos divinos. Não devemos pensar que este terremoto seja algo simbólico, mas sim de um evento de proporções mundiais, que provocará abalos sísmicos, sendo sentido em toda a natureza física;

· “...O sol ficou escuro como tecido de crina negra[2], toda a lua tornou-se vermelha como sangue,...” (v.12b). Em outros textos da Bíblia também faz menção destas coisas (Jl. 2:31; 3:14,15; Ag. 2:6; Is. 13:10; 34:4; Jr. 4:23-28; Mt. 24:29). A idéia é que a natureza e o cosmos serão atingidos. O mundo como vemos hoje não existirá mais após a vinda de Cristo. É possível que as guerras – quem sabe seja uma guerra atômica – produzam isto.

· “...e as estrelas do céu caíram sobre a terra como figos verdes caem da figueira quando sacudidos por um vento forte. O céu foi se recolhendo como se enrola um pergaminho, e todas as montanhas e ilhas foram removidas de seus lugares.” (v.13,14). É possível que meteoros, ou meteoritos, esteja em foco (v.13). Vemos que o cosmo num todo sofrerá com aqueles dias. A terra sofrerá grandes terremotos ao mesmo tempo, em vários lugares, e até mesmo o firmamento será abalado (v.14).

· “Então os reis da terra, os príncipes, os generais, os ricos, os poderosos – todos, escravos e livres, esconderam-se em cavernas e entre as rochas das montanhas. Eles gritavam às montanhas e às rochas: Caiam sobre nós e escondam-nos da face daquele que está assentado no trono e da ira do Cordeiro!” (v.15,16). Todas as pessoas que contemplarem isto entenderão que isto é o fim do mundo. Neste momento o homem, sempre muito cheio de si mesmo, entenderá que não vale nada sem Deus. A Grande Tribulação fará com que toda a humanidade se prostre. E assim, ninguém escapará (v.15). Diante do inevitável – que é contemplar a ira do Cordeiro – os homens apelarão para a morte. Quando os homens não conhecem a Deus, acabam apelando para isso.



Quanto à ira de Deus vale salientar algo muito importante. A ira aqui não é como imaginamos, um sentimento raivoso e pecaminoso, e sim uma ação de Deus contra o pecado e a iniqüidade humana. Paulo escrevendo aos Romanos disse: “Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça,...” (Rm. 1:18). No N.T. a palavra “ira” está vinculada ao nome de Deus (Ap. 11:18; 14:10,19; 15:7; 16:1 e 19:15). Mas aqui a ira pertence também ao Cordeiro que virá, não como Salvador e Redentor, e sim como Juiz. O termo “ira” quando ligado a pessoa de Deus não tem nada a ver com emoção e sim é um termo técnico que significa “julgamento”.

E o texto termina com um questionamento apavorado. Os homens sabem que Cristo está bem próximo e perguntam: “Pois chegou o grande dia da ira deles; e quem poderá suportar?” (v.17). O que está em foco é o juízo que está perto. É por isso que os homens preferirão morrer a encontra-se com Deus. Naquele dia ninguém poderá resistir a manifestação do Senhor.

Meus amados, quando lemos um texto como estes somos impulsionados a questionar a nossa vida cristã. Como estamos em nosso compromisso com o Senhor? Estamos realmente preparados para o dia em que Ele arrebatará a Igreja? Será que desejamos a Sua manifestação? O Senhor está às portas. Faz-se necessário que cada cristão faça uma análise de sua vida e viva a cada dia em santidade e consagração diante de Deus. Viva hoje como se Cristo viesse buscá-lo amanhã.
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