Parte 11 - O Livro e o Cordeiro
Ap. 5:1-14



O capítulo 4 terminou com a adoração do Deus Criador. João continua a mostrar a sua visão que ganha contornos ainda mais misteriosos. O capítulo 5 é a continuação do capítulo anterior e a introdução para o que virá nos próximos três capítulos, mais precisamente acerca dos selos. João escreveu: “Então vi na mão direita daquele que está assentado no trono um livro em forma de rolo, escrito de ambos os lados e selado com sete selos.” (v.1).

O que está assentado no trono é Deus. O trono tem o mesmo significado do capítulo 4, ou seja, autoridade. O foco aqui é o rolo que está em sua mão direita. O termo “rolo” no original é biblion (biblion), e não há um consenso geral entre os estudiosos de como era este rolo. Os livros antigos eram formados de papiros ou pergaminhos (couro). Que livro seria este? Há vários pontos de vista:



- O livro seria símbolo da promessa de Deus, já que no mundo romano, quando alguém dava um testamento, aplicavam sete selos e sete testemunhas compareciam diante da pessoa que deixava o testamento. O problema desta interpretação é que os selos não falam de promessas e sim de julgamento contra aqueles que são rebeldes;

- Outro ponto de vista aponta o livro como sendo o livro da vida do Cordeiro, que aparece diversas vezes no Apocalipse (3:5; 13:8; 17:8; 20:12,15; 21:27). Este ponto de vista não é bom porque não corresponde aos acontecimentos que se seguem com a abertura dos selos;

- O melhor ponto de vista é que o livro é a própria revelação de Jesus Cristo. Ezequiel recebeu um rolo escrito dos dois lados como o de João. Segundo a Bíblia o rolo que o profeta tinha “...palavras de lamento, pranto e ais.” (Ez. 2:10). Ezequiel recebeu a ordem de comê-lo, e assim estaria pronto para profetizar a Israel. O rolo que João viu é esta revelação que o Senhor lhe deu, é a profecia dos tempos finais, incluindo a salvação do povo de Deus e o julgamento dos ímpios.



Segundo a visão de João, o livro estava selado com sete selos. O número sete indica perfeição, natureza completa. Neste julgamento Deus revelará todo o seu juízo. O selo era uma autenticação que dava legalidade. Segundo Champlin, em seu comentário do Novo Testamento, fala dos diversos tipos de selos usados nos tempos antigos[1]:



- Algumas portas eram seladas com uma corda, e os túmulos com grandes pedras.

- O selo cilíndrico era um dos mais comuns. Feito de barro cozido ou de pedra, com gravuras esculpidas ao derredor. O cilindro era rolado em cima do objeto, deixando suas marcas.

- Selos de cera eram usados para selar livros e outros documentos.

- Selos escaravelhos, feito de rocha ou de outro material, esculpido em forma de besouro, com figuras gravadas no mesmo, e com o qual se fazia a impressão.

- Selos em anéis, que podiam ser escaravelhos engastados em um anel. Muitas figuras eram incluídas nestes selos, tais como figuras humanas, divindades, animais, palavras ou letras.



O livro com os sete selos traz um simbolismo muito forte, revelando que ele está plenamente selado, e que seu significado está oculto de qualquer olho humano. No verso 2 João viu um anjo poderoso que clamou em alta voz: “Quem é digno de romper os selos e de abrir o livro?”. O verso 3 complementa o verso anterior e a visão dos sete selos: “Mas não havia ninguém, nem no céu nem na terra nem debaixo da terra, que pudesse abrir o livro, ou sequer olhar para ele.”. O livro selado era inacessível. Quem era digno no céu (os anjos), na terra (os homens) ou debaixo da terra (os que morreram)? A idéia de dignidade aqui é possivelmente moral. Abrir os selos significa revelar o juízo e garantir seu cumprimento.

Mas ninguém foi achado digno, e muito menos podia olhar para o livro. Por que? Porque ninguém era capaz de fazê-lo, a não ser Aquele que iria cumprir o propósito eterno de Deus.

No verso 4 João se mostra profundamente decepcionado com tudo: “Eu chorava muito, porque não se encontrou ninguém que fosse digno de abrir o livro e de olhar para ele.”. Nada na criação de Deus podia realizar aquela tarefa. João chorava porque, daquela forma, a revelação de Deus não seria dada aos homens. O termo grego aqui traduzido por choro é eklaion (eklaion) que significa chorava em voz audível.

Mas no verso 5, um dos anciãos chegou a ele e disse: “Não chore! Eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.”. Uma palavra de encorajamento lhe foi dada. O Filho de Deus venceu para abrir o livro. Aqui aparecem duas figuras para descrever Cristo como vencedor. A primeira é do Leão da tribo de Judá. O Messias teria de vir da linhagem de Davi. A figura do Leão traz a idéia de poder e de força. Em Gn. 49:9,10 vemos uma das primeiras profecias messiânicas: “Judá é um leão novo. Você vem subindo, filho meu, depois de matar a presa. Como leão, ele se assenta; e deita-se como uma leoa; quem tem coragem de acordá-lo? O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão.”[2]. A referência de Gênesis nos mostra um Messias vencedor. Esta é a idéia aqui. Cristo pode abrir o livro porque venceu e tem poder para isto. A segunda figura é a Raiz de Davi, que com certeza tem conexão com Is. 11:1: “Um ramo surgirá do tronco de Jessé, e das suas raízes brotará um renovo.”. Mostra mais uma vez que o Messias deveria vir da descendência davídica, e Cristo é a Raiz de Jessé. O ancião disse que Ele venceu. A palavra “venceu” diz literalmente “ganhou uma vitória” (gr. enikhsen = enikêsen). A grande vitória de Cristo foi realizada na cruz do Calvário. Os grandes inimigos do povo de Deus são Satanás, o pecado e a morte. Satanás já está derrotado e com seus dias contados, e isto acontecerá na vinda de Cristo. O pecado e a morte, que são reflexos do poder de Satanás, já foram derrotados na encarnação de Cristo. Paulo escrevendo aos colossenses nos diz: “e, tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz.” (Cl. 2:15). O Escritor aos Hebreus disse: “Portanto, visto que os filhos são pessoas de carne e sangue, ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte.” (Hb. 2:14,15). Tudo isto fazia com que Cristo tivesse a autoridade de abrir o livro.

No verso 6 João disse: “Depois vi um Cordeiro, que parecia ter estado morto, em pé, no centro do trono, cercado pelos quatro seres viventes e pelos anciãos. Ele tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados a toda a terra.”. O Leão era agora um Cordeiro, e o Messias vencedor era agora o Messias sofredor. Como escreveu Ladd: “A vitória final de Cristo como Leão de Judá – o Messias conquistador – só é possível porque antes ele sofreu como Cordeiro.”[3]. Há duas coisas que nos chama a atenção. A primeira é novamente a menção da Trindade Divina. No verso 1 deste capítulo Deus o Pai e Criador, está assentado no trono. Agora João vê o Cordeiro (o Deus Filho) em pé no centro do trono, e este tem sete chifres, ou seja, a plenitude do poder[4], sete olhos que simbolizam sua onisciência plena, mostrando que Ele tudo pode ver, e os sete espíritos de Deus que simboliza claramente o Espírito Santo em toda a Sua plenitude. João demonstra de forma simbólica o relacionamento entre Cristo e o Espírito. O Espírito no capítulo 4 apareceu como sete lâmpadas de fogo (4:5). Agora é simbolizado como sete espíritos de Deus enviados por toda a terra, nos mostrando a ação mundial do Espírito. A segunda coisa importante que vemos é a menção de Cristo como o Cordeiro. O significado do cordeiro é muito comum no A.T. Na páscoa, quando Deus libertou os filhos de Israel do Egito, cada família matou um cordeiro ao anoitecer, aspergindo o sangue nos umbrais das casas. Em Isaías 53, o ponto central da profecia do servo sofredor é a metáfora do Cordeiro: “Ele foi oprimido e afligido; e, contudo, não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado para o matadouro, e como ovelha que diante dos seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca.” (Is. 53:7). Os judeus não conseguiam entender esta profecia ligada ao Messias porque imaginava ele como vencedor dos poderes do mal. Isto para eles era uma pedra de tropeço (I Co. 1:23). João no seu evangelho afirma que Jesus é o Messias, o Rei de Israel e o Cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo. 1:29,49). A visão de João no Apocalipse retrata de forma maravilhosa a mensagem central do evangelho. O Leão que é um Cordeiro morto venceu. Como disse Paulo, realmente isto é loucura (I Co. 1:18).

No verso 7 o Cordeiro recebe o livro em suas mãos. O Deus Pai o entrega, confirmando o que está escrito no início do livro (1:1). O Pai comunicou e o Filho executará.

Quando isto aconteceu, João descreve que os seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro. Os verso 8-10 trazem uma visão majestosa e que nos mostram coisas impressionantes:



· “...prostraram-se diante do Cordeiro.”. Os vinte e quatro anciãos e os quatro seres viventes prestaram a Cristo a mesma adoração dada ao Pai (cf. 4:10). Isto demonstra claramente a divindade de Cristo, e não que ele fosse uma criatura elevada em sua dignidade.

· “...Cada um deles tinha uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos;...”. O termo grego kiqaran (kitharan) não significa a harpa como temos hoje. Assemelhava-se mais a um violão ou guitarra, que originalmente era de formato triangular, com sete cordas. Eles tinham este instrumento para louvar ao Cordeiro. Eles também tinham taças de ouro. O vocábulo grego é fialaV (phialas), e no contexto grego era um vaso largo e chato, usada para ferver líquidos e também para servir como uma urna para derramar libações. Talvez a melhor tradução fosse tigelas. Dentro destas estavam as orações dos santos, que está simbolizada como incenso. Tradicionalmente o incenso é símbolo de oração. (Lv. 16:12,13; Sl. 141:2). O incenso era usado no A.T. e no culto no templo. Diante do véu interior havia um altar de incenso, e diariamente se oferecia nele incenso a Deus. Nos primeiros três séculos não há evidências de uso de incenso nos cultos pelos cristãos. As orações dos santos estavam sendo apresentadas diante do Cordeiro. Mas vem uma pergunta: Quem são os santos? Este termo usado por João refere-se ao povo de Deus, que também era usado pelo apóstolo Paulo.

· “...e eles cantavam um cântico novo: Tu és digno de receber o livro e de abrir os seus selos, pois foste morto, e com teu sangue compraste para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação. Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus, e eles reinarão sobre a terra.” (v.9,10). O novo cântico é um eco do culto do A.T., em que Israel era convocado a cantar ao Senhor (Sl. 33:3; 98:1; 144:9; 149:1). Este novo cântico tem vários motivos: a) Pela dignidade do Cordeiro; b) Pelo sacrifício que trouxe salvação; c) Pela obra realizada nos homens que Ele comprou. Com certeza eles tinham razão de cantar um novo cântico ao Cordeiro. Aqui temos a primeira doxologia.



A visão de João ganha mais emoção ainda no verso 11: “Então olhei e ouvi a voz de muitos anjos, milhares de milhares e milhões de milhões. Eles rodeavam o trono, bem como os seres viventes e os anciãos,...”. Temos aqui a segunda doxologia. O termo grego muriadeV muriadwn (myríades myríadôn) traz a idéia de um número ilimitado, que poderia ser traduzido como “incontáveis milhares”. A visão foi com certeza maravilhosa, porque a multidão começou a cantar em alta voz: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor!” (v.12). Percebemos novamente na ênfase que se dá na obra realizada no Calvário. Ele é digno porque morreu na cruz. Na sua morte há vitória. E nesta adoração em que exaltam a dignidade do Cordeiro, eles o adoram com os mesmos atributos de Deus Pai: poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor. Tudo que pertence ao Pai também é do Filho.

Nos versos 13 e 14 acontecem a terceira e última doxologia: “Depois ouvi todas as criaturas existentes no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo o que neles há, que diziam: Aquele que está assentado no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória, e o poder, para todo o sempre! Os quatro seres viventes disseram: Amém, e os anciãos prostraram-se e o adoraram.”. Agora toda a criação acompanhava os anjos em louvor e adoração. A linguagem poética descreve a universalidade da obra de Cristo. Isto não significa dizer que até os demônios serão beneficiados. A visão aqui é o que está escrito em Fp. 2:10,11: “para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus Pai.”. Um dia tudo o que existe reconhecerá o Senhorio de Cristo. O cântico é para o Deus Pai e para o Cordeiro.

Com esta última doxologia a visão do Livro e do Cordeiro chega ao fim. O livro selado e inacessível aos homens e aos anjos pertencia ao Cordeiro. E Ele tinha autoridade para abrir os selos e revelar o juízo de Deus. Com certeza o capítulo 5 é a introdução para o que veremos a seguir. Neste capítulo podemos ver quão foi importante a obra de Cristo no Calvário.
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