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| Parte
10 - O trono do céu |
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Ap. 4:1-11
A partir deste momento veremos aquilo que foi revelado a João. O escritor foi convidado a ver “o que deve acontecer depois destas coisas.”. Alguns acham que as visões a partir do capítulo 4 falam de um período em que a igreja não se encontrará aqui. Outros, porém, discordam, dando a entender que outros capítulos falam dos santos e dos mártires, representando assim a igreja.
É importante também destacarmos que os capítulos que estudaremos a partir de hoje não estão em ordem cronológica. Ora eles acontecem na terra, ora no céu. Alguns fatos ocorrem ao mesmo tempo, e isto é muito importante para entendermos o propósito do livro e dos ensinamentos que nele estão contidos.
No caso do capítulo 4, João nos diz que “estava uma porta aberta no céu.” (v.1). Esta é a porta da revelação. Uma voz o convida a subir, voz como de trombeta. Esta é a voz de Cristo tal como em Ap. 1:10. Alguns vêem na subida de João ao céu um simbolismo do arrebatamento, entendendo que do capítulo 4 em diante os acontecimentos descrevem o que acontecerá no mundo sem a igreja de Cristo. Outros, porém rejeitam esta idéia, afirmando que as palavras são dirigidas a João e não a igreja. É bem certo que esta última esteja correta.
No verso 2, João viu um trono no céu e alguém que estava assentado. O fato de João mencionar o trono nos mostra um tradicional símbolo judaico-cristão. A presença e poder de Deus estão representados no trono, simbolizando a autoridade e soberania. Mas quem estaria sentado no trono? Deus Pai, o Criador (cf. 4:11). É aquele que era , que é e que há de vir.
No versículo 3 João diz: “Aquele que estava assentado era de aspecto semelhante a jaspe e sardônio. Um arco-íris, parecendo uma esmeralda, circundava o trono,...”. Percebemos que João não se atreve a descrever Deus de forma antropomórfica[1]. Ele sabe que a visão que presencia é da glória do Senhor, é a Shekinah. Sobre as pedras mencionadas há muitas especulações sobre o que representariam. O jaspe era uma pedra transparente, parecida com cristal. O sardônio era avermelhada. É possível que o jaspe represente a santidade de Deus, e o sardônio o fogo consumidor do seu julgamento. O arco-íris parecendo uma esmeralda também chama atenção. A esmeralda era de cor verde. O fato de o arco-íris aparecer junto ao trono pode estar lembrando a misericórdia de Deus para com os homens, assim como nos dias de Noé.
No verso 4 João continua: “ao redor do qual estavam outros vinte e quatro tronos, e assentados neles havia vinte e quatro anciãos. Eles estavam vestidos de branco e na cabeça tinham coroas de ouro.”. Há alguns autores que vêem aqui uma figura da igreja tanto no Antigo como no Novo Testamento. Seriam os doze patriarcas e os doze apóstolos. Outros, no entanto rejeitam esta idéia, mesmo achando que é bem convincente. O problema está nas funções realizadas pelos anciãos (5:8; 7:13,14; 8:3). Uma interpretação interessante é aquela que diz que, no culto do Templo de Jerusalém havia vinte e quatro turnos de levitas que se ocupavam de seus deveres (I Cr. 24:3-18). Neste caso os vinte e quatro anciãos seriam adoradores celestiais, no caso aqui anjos. Estes estavam vestidos de branco, ou seja, de santidade, de esplendor espiritual. E tinham em suas cabeças coroas de ouro. O termo grego stefanouV (stephanos) indica a coroa da vitória.
No verso 5 lemos que do trono que João viu saíam relâmpagos, vozes e trovões são manifestações simbólicas da presença de Deus (Êx. 19:16; Ez. 1:13), simbolizando a glória do Senhor (Sl. 18:13-15; Jó 37:2-5). Diante deste trono glorioso “...estavam acessas sete lâmpadas de fogo...”, ou seja, o Espírito Santo. Em Ap. 1:4 aparece novamente o número sete simbolizando justamente a plenitude do Espírito. Ele está junto com o Pai Criador, e o Filho que surge neste capítulo somente como a voz que chamou João.
Diante deste trono João escreveu que “...havia algo parecido com um mar de vidro, claro como cristal.” (v.6a). No A.T. aparece esta idéia. Em Êx. 24:10 o texto bíblico nos diz que Moisés, Arão, Nadabe, Abiú e mais setenta anciãos do povo subiram para adorar a Deus, “e viram o Deus de Israel, sob cujos pés havia algo semelhante a um pavimento de safira, como o céu em esplendor.”. Na visão de Ezequiel, “Acima das cabeças dos seres viventes estava o que parecia uma abóbada, reluzente como gelo, e impressionante.” (Ez. 1:22). Não há dúvida da dificuldade de se entender este mar. Há várias interpretações. Mas é bem possível que seja o mundo que está diante dos olhos de Deus que virá julgá-lo.
Dos versos 6b-8 aparece uma visão que tem trazido muita controvérsia em nossos dias. O texto diz: “No centro, ao redor do trono, havia quatro seres viventes cobertos de olhos, tanto na frente como atrás. O primeiro ser parecia um leão, o segundo parecia um boi, o terceiro tinha rosto como de homem, o quarto parecia uma águia em vôo. Cada um deles tinha seis asas e era cheio de olhos, tanto ao redor como por baixo das asas. Dia e noite repetem sem cessar: Santo, santo, santo é o Senhor, o Deus todo-poderoso, que era, que é e que há de vir.”.
Este texto tem sido utilizado ultimamente para basear as chamadas “unções do Espírito”. Só que olhando o texto criticamente não veremos esta conotação. Não aparece uma só vez o termo unção. O foco do texto é Deus e seu trono eterno, e não qualquer visão mística de unção. Defender unção da águia, do leão, do boi, ou qualquer outra coisa em cima deste texto é ser, no mínimo, desonesto com o texto sagrado.
Sem dúvida nenhuma os quatro seres viventes são os mesmos de Ez. 1:4-14 e 10:14. É bem possível que a visão que Isaías teve no Templo também esteja em vista aqui. Segundo escritos judaicos posteriores[2] os querubins de Ezequiel, e os serafins de Isaías eram seres que nunca dormiam, mas que guardavam constantemente o trono de Deus. Os muitos olhos faziam esta vigilância ser completa e absoluta. Ainda segundo uma tradição judaica, baseada no capitulo 2 de Números, trás a idéia destes seres. O texto nos mostra a disposição das tribos nos acampamentos. O Senhor mandou organizar Israel em quatro acampamentos com três tribos cada uma. As tribos de Judá, Rúben, Efraim e Dã encabeçavam cada grupo de tribos. Segundo esta tradição cada agrupamento tinha uma bandeira: a de Judá tinha a figura de um leão; a de Rúben uma cabeça humana; a de Efraim um boi; e a de Dã uma águia.
Perceba que não há aqui nenhuma visão de unção. Estes são seres criados para a glorificação exclusiva de Deus. Ladd escreve assim: “Isto por sua vez podemos interpretar de duas maneiras: ou os querubins representam o louvor e a adoração que toda a criação tributa ao Criador; ou eles representam seres angelicais que o Criador usa para executar seu governo e sua vontade divina em todas as espécies da criação.”[3]. Não há dúvida que estes seres estão diante do trono somente para exaltar a majestade de Deus.
O verso 7 nos diz que estes seres viventes tinham rostos diferentes: leão, boi, homem e águia. Cada rosto representa alguma coisa. O leão é um animal poderoso e decidido. Revestido de grande força física não hesita em se utilizar dela. Aqui pode estar caracterizado o poder de Deus. O boi (ou novilho) era um animal próprio para o sacrifício ou expiação. O boi também é um animal paciente. O simbolismo aqui pode significar que o poder de Deus é administrado pela paciência. O homem representa a coroa da criação. O homem chegando-se a Cristo, que foi homem como nós, porém sem pecado, torna-se filho de Deus. E por fim a águia, que representa a revelação de Deus.
No verso 8 aparecem mais alguns símbolos. Estes seres tinham seis asas. Estas asas representam o governo de Deus em movimento. Com certeza as descrições de Isaías e Ezequiel aparecem juntas aqui. Eles tinham vários olhos, e estes distribuídos em todo corpo. Estes olhos simbolizam o governo onisciente de Deus. Tudo isto porque “Dia e noite repetem sem cessar: Santo, santo, santo é o Senhor, o Deus todo-poderoso, que era, que é e que há de vir.”. Isto significa que estes seres, criados para adorarem exclusivamente a Deus, o fazem constantemente. Muito mais, se eles representam o governo de Deus em seu movimento e onisciência, então percebemos que não há intervalos no agir de Deus na história.
O canto dos seres viventes também é algo a destacarmos. Este canto é para o Pai, o Criador de todas as coisas. Eles cantam a santidade de Deus (Êx. 15:11; Is. 6:3; 40:25; Sl. 99:3; Hc. 1:13, etc.), a Sua soberania quando o chamam de Senhor, o Seu poder e a Sua eternidade.
E por fim, dos versos 9-11, a visão é completada com a adoração ao Deus Criador. O texto diz que “Toda vez que os seres viventes dão glória, honra e graças àquele que está assentado no trono... os vinte e quatro anciãos se prostram diante daquele que está assentado no trono e adoram aquele que vive para todo o sempre.” (v.9,10). É interessante notar que eles adoram ao Senhor, glorificando a majestade de Deus, dando graças por sua bondade. Deus é aquele que “está assentado no trono” e o “vive para todo o sempre”, ou seja, Ele é o Rei e o Eterno. Os que estavam diante do trono o adoram e se prostram. Os anciãos lançam suas coroas diante do trono, indicando sujeição e dependência diante de Deus. E por fim cantam ao Senhor:
“Tu, Senhor e Deus nosso, és digno de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas, e por tua vontade elas existem e foram criadas.” (v.11)
No cântico Deus é o único digno de receber a glória, a honra e o poder. Ele é digno porque é o Criador e tudo depende dEle exclusivamente. Quando examinamos o fim deste capítulo, percebemos que ele nos traz uma grande lição. Que lição seria esta? De que Deus é o único que deve ser glorificado. É a lição da adoração. Quantos homens acham que são alguma coisa, quando na realidade nada mais são do que meros homens. A visão do trono do céu e do Deus Todo-poderoso em Sua glória deve encher o nosso coração. Quando aprendemos a adorar a Deus descobrimos que tudo em nossa vida depende dEle. Aprendamos com este texto a adorar ao Senhor nosso Deus. Um dia estaremos diante deste trono para juntos adorarmos com os anjos, os seres viventes e os vinte e quatro anciãos Aquele que era, que é e que há de vir. |
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